sexta-feira, 9 de abril de 2010

Um pouco mais que a Lei de Say (continuação)

Schumpeter, Joseph
(1883-1950)
Marx, Schumpeter e Keynes

Porém a tese inicial, ditando que toda renda convertida em capital durante um determinado período de tempo, se transforma nesse mesmo período, em salários aos trabalhadores, será uma ferida aberta por Marx, ao questionar então: Onde estaria então a origem do lucro? Ele desenvolve seu trabalho até chegar ao conceito da “mais-valia” .
De certa forma, antes de Marx, Rodbertus e o próprio Smith já haviam exposto, mas foi Marx que denomina de mais-valia esta fração de trabalho não pago, ou seja, existe mais tempo de trabalho embutido em seus produtos do que o tempo de trabalho que ele é forçado a pagar ao trabalhador como salário.
Como acontece isso? Porque o capitalista monopoliza os meios de produção, possui as máquinas e equipamentos sem os quais homens e mulheres não podem trabalhar. Sendo que os capitalistas também competem entre si, não só pela maior acumulação, mas pela forma de expandir sua produção, a priori, na época de Marx, pela força de trabalho.
Sabemos (e muita vez dói no bolso) que o juro é um fato. Então? Por sua vez, Schumpeter coloca que ele pode ser entendido como uma espécie de “salário” do trabalho dos capitalistas seja via espoliação dos assalariados ou incorporação aos instrumentos de produção. E mais, conceber o juro como elemento do custo! Na sua obra, fica evidente a importância do empreendedor, como mola-mestra do desenvolvimento e crescimento, assim se Marx enxerga no lucro um problema, Schumpeter vê uma solução. E se o juro é irrefutável, questiona: “como surge o juro a partir do lucro empresarial.
Keynes em seu seminal trabalho, “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, chama a atenção que se validada a preposição clássica de Say, Ricardo ( e outros, incluindo Mill, Pigou e Marshall) de que a oferta cria sua própria procura, para todos os níveis de produção e emprego, obrigatoriamente teriam que ser também premissas: não existiria o que se chama desemprego involuntário e o salário real é seria igual à desutilidade marginal do trabalho existente .
Empiricamente sabemos que são falaciosas, quanto ao desemprego, então? Não necessitamos de nenhum estudo econômico para compreender, bastando abrir nossas janelas, mas Keynes em seu trabalho desmonta a estrutura clássica, talvez por viver na pele a Grande Depressão de 30 (seu livro é de 1936).
As decisões de poupança são tomadas pelos indivíduos em função de sua renda, enquanto que as decisões de investimentos são tomadas pelos empresários em função de suas expectativas de lucro. Não há nenhuma razão pela qual a poupança e o investimento devam coincidir. Tal mudança provavelmente é que no tempo de Say, Ricardo e Mill, idos de 1800, “os que poupavam eram os mesmos que colocavam as poupanças em uso” , capitalistas, como uma denominação diferente ou não, mas no século dezenove graças ao comércio, muda o paradigma de distribuição de riqueza, horizontalizando, ocorrendo uma separação de investimento e poupança, daí o crescimento das casas bancárias, intermediando e provavelmente o surgimento da “haute finance”, designação de Karl Polanyi para o grande capital que surge nas três últimas décadas do século XIX.
No primeiro grande ciclo de liberalização financeira, com predomínio dos bancos ingleses, cantava-se o laissez-faire, porém na realidade, maior parte do mundo (dominada financeiramente) era obrigada a praticar o livre comércio pelo colonialismo.
Finalmente, enxergamos o Estado, como tendo não só uma função de regulação, mas de fomentador, afinal, o que seria o apoio à P&D nos EUA, por exemplo, sem a NASA e o Pentágono?
Enfim, o equilíbrio nos tempos de Say e Ricardo (e outros) corresponde a uma situação ideal, um modelo econômico, caricatura da realidade, porém, ao se introduzirem a incerteza e as expectativas (e sim, o Estado, nesse mundo de “mercado”), o axioma proposto por aquela lei, torna-se inviável. Além, a busca de segurança na moeda, faz com que o equilíbrio (não predeterminado) ocorra fora do pleno emprego e esta preferência pela liquidez é uma regra de comportamento dos agentes na busca de melhor alocar sua riqueza sob condições de incerteza. Afinal, se soubesse do Plano Collor, você deixaria seu dinheiro no banco ou embaixo do colchão?
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Continua com: Modelos Econômicos
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sábado, 3 de abril de 2010

Um pouco mais que a Lei de Say

Say, Jean-Baptiste
(1767-1832)

Malthus, Ricardo e Say

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Determinados assuntos, não só os econômicos, são de difícil datação, simplesmente todos que remontam a antiguidade e longínqua época da recente descoberta da tipografia, numa época onde floresciam analfabetos. Mas segundo consta na literatura, em 1798 Malthus, um pároco, contemporâneo de David Ricardo, mas que ao contrário deste, um homem de ações econômicas, que “operava” no mercado londrino (Ricardo), seguia apenas uma carreira acadêmica, provavelmente mais afeita ao seu recatado temperamento, publica um ensaio afirmando que a população ultrapassaria todos os meios possíveis de sobrevivência e subsistência, pois as (cada vez mais) bocas famintas seriam maiores que o estoque de mantimentos da natureza.

Pois nestes fins de XVIII e início de XIX, Ricardo colocou de certa forma um fim no conceito de Smith, onde a sociedade se movimentaria em harmonia, como uma escada rolante ascendente de progresso, seria o contrário, uma batalha para garantir um lugar seguro na mesma. O mundo econômico tendo constante tendência a se expandir. Como os capitalistas acumulavam, construíam mais lojas e fábricas, isto melhoraria os salários, num processo (efeito dominó) de crescimento.

Enquanto Malthus se preocupava com o que ele denominou “pletora” geral, ou seja, um excesso de mercadorias sem compradores, questionando se o “modelo” não levaria a que o excesso de poupança deixa-se a demanda de mercadorias menor que a oferta? Ou seja, se a renda, neste modelo simplificado divide-se em consumo e poupança, num desequilíbrio (excesso de poupança), ocorre a redução do consumo e, por conseguinte dos empregos e sem salário ninguém consome, desta forma a oferta criada em determinado T1, seria menor que a demanda em T2.

Ricardo refuta as idéias de Malthus, mas quem também ganha fama, é um jovem francês chamado Jean-Baptiste Say, que acreditava que em via de regra (já que o proposto por Malthus não foi demonstrado) a demanda por mercadorias era infinita, pois a fome consumista do ser humano por móveis, enfeites, roupas e luxos parece infindável (não sei de Say era um bom analista da espécie humana, mas com certeza era da feminina). Não sendo só a capacidade de demanda infinita, mas a capacidade para comprar era garantida, pois no seu ciclo, se cada mercadoria produzida custava alguma coisa, cada custo se reverteria ao ganho de algum homem, assim como então poderia ocorrer à pletora geral? Say foi irredutível: “Toda oferta gera sua própria demanda”.

Estas questões se alongam durante o desenvolvimento do pensamento econômico, tanto, que hoje em nossas universidades, ainda estudamos o “modelo de Solow”, que leva em conta que a taxa de poupança equivale ao investimento e esta(e) determina a variação marginal do capital e por (com)sequência a renda (Y).

Continua com Marx, Schumpeter e Keynes

domingo, 14 de março de 2010

Como Melhorar o Desempenho Sexual ?


Pequeno Tratado de Como Melhorar o Desempenho Sexual (para os Homens)

Introdução#

Faz mais ou menos quinze anos que aconteceu.
Não! Apresso-me a dizê-lo, eu não brochei, mas fiquei naquele estado conhecido como “meia-bomba”, nem mole, nem duro... Conto isso, pelo fato de ter sido o motivo que me levou a treinar e posteriormente tornar-me um mestre do sexo e do prazer, pois a situação muito me incomodou.
Não tentarei dar explicações do porque aconteceu a dita situação, a mim, basta o fato de ter acontecido e que não gostaria que voltasse a ocorrer, então desenvolvi o método que de agora em diante pretendo revelar.
Encafifado nos primeiros dias, comecei a (re) lembrar meus tempos de lutador, de como o treinamento rigoroso de meu corpo, tanto fisicamente, como tecnicamente, me levava a ter sempre situações favorecidas nos combates, ou seja, eu não cansava (dentro de determinado limite é claro, mas sempre muito acima da média), meu corpo resistia a pancadas, dava pancadas sem lesionar partes do mesmo e sabia quando necessário, controlar o cansaço. A luta sempre devia começar antes de subir ao ringue, vencendo o adversário (não que as mulheres, no paralelo atual o sejam) na mente, sempre antes de começar literalmente o combate.
Desta forma, resolvi misturar meus conhecimentos de artes marciais (Kyokushin, Hung-Gar, Aikido), com culturas orientais (Yoga, Taoísmo, Tantrismo, Kundalini, Kama-Sutra, entre outras), a priori: respirações, pontos chaves do corpo humano, fortalecimento de partes especificas de meu próprio corpo e troca de posições, no intuito de obter qualidades sonhadas por qualquer bom amante.
Apenas bom, não, o meu caminho foi o da excelência. Não divulgarei meu treinamento e compartilharei meu conhecimento, com o resultado deste, por razões de fanfarronice ou insuflação de ego, apenas humildemente me coloco ao dispor de meus pares, de dividir o que aprendi e assim, que este conhecimento adquirido seja repassado, numa grande corrente de prazer, trazendo mais harmonia e amor (literalmente) ao mundo, além de compensação financeira, haja vista a economia que se fará com terapias farmacológicas modernas.
Quando digo respiração, é a importância desta no ato sexual, o compasso da música do corpo, o ritmo das penetrações, a atenção redobrada ao diafragma e ao abdome, o bater cardíaco, como enfim, controlá-la com parcimônia. Respirar não é um mero ato de entra ar e sai ar, mostrarei que é muito mais do que isso.
Ao mencionar pontos chaves do corpo, refiro-me especificamente as terminações nervosas, o que efetivamente nos interessa, deixando o conhecimento adquirido de torções, somente aos lutadores, pois as ditas terminações são pontos de rápida conexão, entre o corpo e o cérebro, onde aprendi a causar dor, compreendi que uma pressão em intensidade menor e de forma diferenciada de toque dará prazer, muitas vezes (digo isso em repetidas experiências próprias) nunca sentido por certas mulheres, sejam mal casadas ou simplesmente mal amadas.
No ponto de fortalecimento de partes específicas do próprio corpo, tentarei revelar (e comparar) como o lutador que necessariamente necessita tanto ter mãos calejadas o bastante para quebrar grossas madeiras e tijolos (Sosai Mas Oyama chegou a quebrar pedras com as próprias mãos, além de também quebrar chifres de touros), como o corpo rijo, para resistir a inúmeros golpes. Assim, o amante na busca da excelência, deve ter seu pênis e sua língua (sim, afinal o bom amante também deve ser hábil com a mesma) capazes de proezas paralelas, não que quebrará tijolos com o mesmo, mas que se manterá forte o bastante, para inúmeras horas de prazer. Ensinarei técnicas para que se chegue a este estágio... (continua)

Jens disse...
UÊBA!Gostei, Renato. Trata-se de um serviço de utilidade pública, algo de extrema relevância para homens e mulheres deste pais (quiçá do mundo). Desde já defendo a publicação e distribuição ampla do manual, com recursos do Minc e do Ministério da Saúde. A nação agradece. Aguardo expectante a continuidade dos ensinamentos. Espero que os mesmos sejam passíveis de uso por parte de um macho de idade provecta ainda apaixonado por aquilo que alguém definiu como conúbio carnal com o sexo oposto. Reconheço que estou necessitado, mesmo sendo um legítimo bagual dos pampas; apesar da imaginação fértil, a carne é fraca.Um abraço.
8 de fevereiro de 2009 10:15
Cherry disse...
Tô muito curiosa...E para aquelas q não são nem mal casadas, nem mal amadas?
8 de fevereiro de 2009 19:22
loba disse...
Cara, vc está sendo deveras generoso! Não é qq um que socializa assim um conhecimento deste e se disponibiliza desta forma.Agora me diz... para dar maior dinâmica ao treinamento, não será necessario uma demonstração concreta? rs... Afinal, os meninos estarão treinando, mas as meninas só podem exercitar sua curiosidade, né? rs...Eu li! Li os dois poemas!!! E fiquei a me perguntar: por quais ruas ele anda passando? rs...Beijo! Muitos
9 de fevereiro de 2009 14:39
Halem Souza disse...
Sexo e treinamento em artes marciais?... Nunca encarei a coisa dessa forma. Vivendo e aprendendo...Aguardo a continuação das lições.Um abraço.
12 de fevereiro de 2009 08:18
Dora disse...
Então, o post é dedicado aos homens do pedaço? E a gente(mulheres) fica a ler e a se perguntar se o ensino das técnicas vai chegar mesmo a concretizar uma "performance" desejável?Aguardando...rsBeijos.Dora
12 de fevereiro de 2009 11:11

segunda-feira, 1 de março de 2010

Como passar em concurso público? (E depois ser promovido no mesmo)

Deixemos a hipocrisia de lado: quem não sonha com uma “boquinha” regular, sem o estresse do desemprego e com os vários benefícios sociais, tão comuns aos empregos governamentais?
Por isso, depois de APROVADO em três concursos, atualmente (bem) empregado graças a um deles e diante da sempre chata pergunta dos amigos e parentes: Estudou muito? – Resolvi colocar no papel algumas dicas que considero realmente de utilidade. Andei pesquisando em alguns sites e aparecem sempre as mesmas bobagens de auto-ajuda e neurolinguística estilo Lair Ribeiro, ou seja: manter o foco, acreditar no seu sonho, etc. Alguém aí quer escutar ainda estas porcarias? Se quiser, clicou no lugar errado, mas se quer realmente (pequenas) dicas ÚTEIS, continue comigo:

1) A vida não é só o concurso. Isso mesmo. A vida segue nos bares, nos shows, nos namoros e tudo de bom que ela nos dá. Se você fica obcecado demais, no dia D, poderá estar numa tensão tão grande, que lhe dará o tradicional “branco”. Assim, relaxe. Claro que na véspera é para pegar leve... . Isso já me valeu pontos preciosos.
2) Não faça a prova de barriga cheia. Você estudou para esse dia, então se prepare para o combate só com o seu cérebro, seja como um lutador de boxe, afinal você não vai querer fazer cocô no meio da prova, né? Isso já me valeu pontos preciosos.
3) Não faça a prova de barriga vazia. Você tem que pensar na prova e não na fome. Leve uma barra de cereal (ou outra coisinha leve para comer) e quando chegar ao meio das questões dê uma paradinha, beba uma água, enfim, respire, como o intervalo de uma partida de futebol ou um round de luta. Descanse breves minutos e reavalie sua estratégia. Isso já me valeu pontos preciosos.
4) Qual a matéria que tem em TODAS as provas? PORTUGUÊS ! Se você for bom nela, estará garantindo, em média 20% de acertos, assim: LEIA! LEIA! LEIA! Que é a melhor maneira de aprender o nosso idioma, senão deixá-lo incrustado na pele, feito tatuagem. Esqueça as regras (se você as sabe, melhor), pois ao adquirir o hábito de ler, saberá quando algo estiver certo ou errado, talvez não saiba o porquê, mas saberá, saberá. E isso basta para marcar o X. Claro que leva tempo, mas quem mandou só ver novela? Isso quase sempre me valeu gabaritar a parte de português.
5) Faça uma prova anterior do mesmo concurso, pois provavelmente será muito parecida. Isso já me valeu passar TRÊS vezes.
6) Saiba quem está organizando a prova: CESPE, CESGRANRIO, etc. Vale o chavão da “Arte da Guerra”: “Conheça seu inimigo...” Saiba que tipos de questões eles gostam de colocar, assim numa prova para o emprego X, eles podem utilizar uma questão parecida com a do emprego Y. Isso já me valeu passar TRÊS vezes.
7) Não estude matérias grandes. Se determinada parte do conteúdo do programa for muito extensa, pule esta parte, afinal você acha que irá aprender “aquilo tudo” em alguns meses? Foque nas partes menores, pois as questões valem os mesmo pontos. Dificilmente você conseguirá se preparar para 100% das questões, desta forma, já descontando a preparação de português, que deve ser continua, equivalendo a 20% (média), selecione os outros 60% do programa e esteja preparado para 80% da prova. Isso já me valeu passar TRÊS vezes.
8) A diferença entre o primeiro classificado e o último, desde que ambos sejam chamados, é nenhuma. Apenas o primeiro, se convocado antes, irá receber o salário primeiro, mas depois, “lá dentro”, vale ser o “mais safo”, para as promoções e comissões de cargo, pois é notório que o “nerd” que foi o primeiro colocado não teve muita “esquina” na sua criação. Mas vale ser um bom papo e um bom copo, do que determinados diplomas. Isso já me valeu TRÊS promoções...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por que sou ATEU ?

Cartaz do filme
A Última Tentação de Cristo
(Scorsese, 1988)

"O verdadeiro devoto tem de superar o difícil caminho entre o precipício da ausência de Deus e o pântano da superstição."(Plutarco - 66-120)

"Perguntaram um dia a alguém se havia ateus verdadeiros. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos verdadeiros?"(Denis Diderot - 1713-1784)

"Acerca dos deuses não tenho como saber nem se eles existem nem se eles não existem, nem qual sua aparência. Muitas coisas impedem meu conhecimento. Entre elas, o fato de que eles nunca aparecem."(Pitágoras - 485-411. In: 'Cadernos')

"Acreditar é mais fácil do que pensar. Daí existem muito mais crentes do que pensadores."(Bruce Calvert)

"O medo de coisas invisíveis é a semente natural daquilo que todo mundo, em seu íntimo, chama de religião."(Thomas Hobbes. In: 'Leviatã' - 1651)

"Os nomes e o ministério dos anjos são visivelmente tirados dos magos. A palavra Satã vem do persa. A criação do mundo em seis dias está a tal ponto relacionada com a criação, que os antigos magos dizem ter sido feitas em seis gahambars (tempos), que de fato parece terem os hebreus extraído grande parte de seus dogmas desses mesmos magos, como com eles aprenderam a escrita, quando foram escravos na Pérsia."(Voltaire - 1694-1778. In: 'Deus e os Homens')

"Não acredite em qualquer coisa simplesmente porque você escutou. Não acredite em qualquer coisa simplesmente porque foi dito e fofocado por muitos. Não acredite em qualquer coisa simplesmente porque foi encontrado escrito em seus livros religiosos. Não acredite em qualquer coisa meramente na autoridade de seus professores e anciãos. Não acredite em tradições porque elas foram passadas abaixo por gerações. Mas após observação e análise, quando você descobre que qualquer coisa concorda com a razão e é condutivo ao bem e benefício de um e todos, então aceite e viva para isso."(Siddartha Gautama, o Buda - 563-480)

"Foi o homem quem criou Deus, o homem colocado em condições de existência determinadas. A religião é uma certa maneira pela qual o mundo se reflete na consciência do homem. E se, enquanto reflexo, é um reflexo absurdo, isso se dá porque o mundo que é refletido é, ele mesmo, absurdo."(Georges Politzer - 1903-1942. In: 'A Filosofia e os mitos')

"O Pentateuco é o único documento antigo em que se vê uma lei expressa mandando imolar homens, mandamentos expressos de matar em nome do Senhor."(Voltaire - 1694-1778. In: 'Deus e os Homens')

"Quando os missionários chegaram pela primeira vez na nossa terra, eles tinham as Bíblias e nós tínhamos a terra. Cinqüenta anos depois, nós tínhamos as Bíblias e eles tinham a terra." (Jomo Kenyatta, 1º Presidente do Quênia após a independência)

"O cosmo fala por meio de padrões."(Heráclito de Éfeso - 540-480)

"Todas as grandes verdades começam como blasfêmias."(Bernard Shaw - 1856-1950)

"Se existisse um Deus bondoso e todo-poderoso, teria feito exclusivamente o bem."(Mark Twain)

"Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião."(Abraham Lincoln - 1809-1865)

"Em todos os tempos, os homens acreditaram que podiam aplacar os deuses por meio de oferendas, já que muitas vezes aplaca-se a cólera dos homens dando-lhes presentes e que sempre fizemos Deus à nossa imagem. Presentear Deus com o sangue de nossos inimigos - nada mais simples. Nós os odiamos, logo imaginamos que nosso Deus também os odeia. Assim, o papa Inocêncio III acreditou fazer piedosíssima ação ao oferecer o sangue dos albigenses a Jesus Cristo."(Voltaire - 1694-1778. In: 'Deus e os Homens')

"O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente."(Carl Sagan - 1934-1996)

"Desde que o universo tenha um começo, podemos supor que ele teve um criador. Mas se o universo é completamente auto-contido, não tendo fronteiras ou bordas, ele não seria nem criado nem destruído… Ele simplesmente seria.Que lugar há, então, para um criador?"(Stephen W. Hawking, físico inglês)

Como escrevi em horas de vã interrogação metafísica, há uns bons quinze anos, Deus é o silêncio do universo e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio."(José Saramago. In: 'Deus e Ratzinger'. Texto publicado em 'O caderno')

"Deus, Satã, Paraíso e Inferno, todos desapareceram um dia nos meus quinze anos, quando abruptamente perdi minha fé […] e além disso, para provar meu ateísmo recém-descoberto, comprei um sanduíche de presunto, e então partilhei pela primeira vez a proibida carne do suíno. Nenhum raio caiu em mim. […] Desde esse dia até hoje eu me considero uma pessoa completamente secular."(Salman Rushdie, In: 'Em Deus Nós Confiamos')


"Como pensar que as idéias religiosas são essencialmente moralizadoras, quando se vê que a história dos povos cristãos é tecida de guerras, massacres e suplícios?"(Anatole France - 1844-1924. In: 'O anel de Ametista')

“Quando tinha 10 anos fiz a primeira comunhão. A professora de catecismo dizia que não pode morder a hóstia, porque um menino na França tinha mordido a hóstia e tinha saído sangue pela boca. Fiquei com aquilo na cabeça. Na primeira comunhão eu não tive coragem, mas, uma semana depois, um tio fez bodas de prata e teve uma missa. Aí fui lá receber a hóstia, voltei para o meu lugar e mastiguei. Não saiu nada e eu virei ateu naquele momento. A partir daí, sempre que ouvia as aulas de religião no colégio pensava que aquilo podia ser mentira. E quando você começa a fazer isso com religião é devastador, porque é uma questão de fé, religião não admite racionalidade.”
(Drauzio Varella)

“Se pelo menos deus me desse um sinal! Algo como fazer um depósito gigantesco em meu nome num banco suíço.”
(Woody Allen)

“As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão.”
(Sebástien Faure)

“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”
(José Saramago)

“Eu ainda digo que se uma igreja tem um pára-raios no telhado é por falta de confiança.”
(Doug McLeod)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Para Onde Foram os Negros?

Anúncio da fuga do escravo Fortunato, no Rio de Janeiro, em 18/10/1854

A abolição da escravidão no Brasil, em 1888, não foi um evento estanque em si. Começa pelo menos 40 anos antes e quanto ao seu término, prender os negros e açoitá-los, podemos historicamente aceitar como não havendo mais à partir da Lei Áurea, mas a questão da escravidão, tanto social como econômica, deve ser analisada com mais cuidado, ante o que escreveu Rodbertus:

“...quase sempre a fome substitui a chibata, e o que antes era chamado ração dos escravos agora se chama salário.”

Em 1850, cessa o tráfico negreiro no país (oficialmente), quando contáva-mos com uma população de dois milhões de escravos, algo em torno de 25% do total de nossa população, que pelo fim e/ou redução das atividades econômicas no nordeste e em Minas Gerais, deslocava-se para o novo setor dinâmico da economia, as lavouras de café de São Paulo.
Naturalmente, obedecendo a leis econômicas de escassez, oferta e demanda, o preço do escravo sofre acréscimos sucessivos, desta forma, tornando-se irracional seu uso predatório, tão característico e usual, bastando atentar para a expectativa de vida do escravo brasileiro, que no último quarto de século XIX, variava em torno de 19 anos, não de “utilização”, mas de idade (SCHWARTZ).
Obviamente, sem o tráfico legalizado, a reposição contínua da escravaria, morta aos milhares a cada ano não se sustentaria.
O café já era então, o principal produto de exportação na década de 1840, como visto, antes da abolição e até mesmo antes da proibição do tráfico, porém, sendo o momento em que o Rio de Janeiro está deixando de ser o único e grande produtor (até mesmo por conta das características da planta), compartilhando e posteriormente perdendo o posto (com folgas) para São Paulo.
A produção continuava apoiada no trabalho escravo, em 1855 conforme pesquisa, havia 55.834 escravos para 62.226 trabalhadores nas plantações de café, porém com a Lei Eusébio de Queiróz (1850), ao invés de ingressarem da África 30.000 escravos em média por ano, passa há entrar um pouco menos que 10% deste número.
Assim surge o problema: Como encontrar a força de trabalho necessária à rápida expansão das plantações?
O Brasil desde 1850 já adotava um processo gradual de abolição. Após a proibição do tráfico, vem em 1871 a “Lei do ventre livre”, porém, pode-se imaginar a liberdade de que dispunha filhos de escravos nas fazendas dos proprietários de seus pais e em 1884, outra lei declara “homem livre” todo escravo com mais de 60 anos de idade. Conforme já visto na expectativa de vida do mesmo, além do registro de nascimento dos escravos serem deficientes e não confiáveis, quantos realmente seriam beneficiados com tal lei?
Antevendo a inexorável abolição em um futuro próximo, já em 1850 começam as primeiras imigrações, não só por conta da expansão cafeeira, mas, sobretudo porque grande parte da maioria da mão de obra escrava da época, provavelmente estaria morta na data marco da libertação destes, que ocorreria 38 anos depois.
Mas por que esta opção paulista pela imigração como solução para o problema da mão de obra? O trecho da obra de Joaquim Nabuco (O Abolicionismo) ilustra:

“A população do nosso interior foi por mais de três séculos acostumada a considerar o trabalho do campo como próprio de escravos. Saída quase toda das senzalas, ela julga aumentar a distância que a separa daqueles, não fazendo livremente o que eles fazem forçados”

E mais, se antes os capitalistas de então, detinham o fator de produção trabalho, via posse dos escravos, com a “Lei das Terras” de 1850 (vejamos a incrível coincidência, de ser no mesmo ano que cessa o tráfico), proibia o acesso as mesmas aos que não pudessem comprar, assim impedindo o ex-escravo ou o recém chegado imigrante, o acesso legal a uma gleba, ou seja, para o “fim do cativeiro de seres humanos, era tornar cativa a terra” (MARTINS).
Havia enorme e preconceituosa resistência ao trabalhador livre nacional, visto como preguiçoso, não confiável e o pior: privado de mentalidade burguesa, já que ao se satisfazer com muito pouco, tampouco seria também mercado, afinal passaria a receber salários.
A elite paulista acreditava piamente, que o homem de cor negra, só se submeteria pela força e pelo chicote, assim, como exerceriam controle e manteriam a disciplina usando somente incentivos pecuniários?
Seria necessário um enorme aparato policial ou então milícias particulares, para obrigar os “vadios e vagabundos” a vender sua força de trabalho, contra ameaça de prisão e castigos, mas era um momento em que todo e qualquer capital estava comprometido diretamente com a lavoura cafeeira.
Após 1870, o governo de São Paulo tomou a seu cargo a responsabilidade da imigração e entre 1887 e 1897 chegou ao Brasil cerca de 1.300.000 imigrantes. Em 1888, quando a escravidão é totalmente abolida, a imigração já era massiva, com grande parte de italianos (65%), que viviam dias difíceis após a Unificação Nacional na Itália.
Como colocou Florestan Fernandes:

“Por paradoxal que pareça, motivações econômicas puramente capitalistas originam, assim, de modo recorrente, fortes obstáculos à expansão do capitalismo...”

Desta forma, a abolição gradual, vistas a que o capital imobilizado em escravos não desaparecesse de súbito, não foi suficientemente concomitante com a introdução progressiva do trabalho assalariado, vide o lapso temporal entre o início da primeira e a torrente imigratória. Dentre os dados relativos ao período em questão, temos que em 1850 o Brasil exportou 8,1 (em milhões de libras) e somente em 1890 este valor sobe para 30,0.
Em 1888 havia ainda cerca de 700 mil escravos no Brasil, “culpados” pelo atraso na passagem ao trabalho assalariado, talvez por conta disto, nossas elites estejam até hoje “cobrando a conta”.

Referências:

BOHM-BAWERK, Eugen Von. A teoria da exploração do socialismo-comunismo (cópia) .
CARDOSO, Adalberto. Escravidão e sociabilidade capitalista. Acesso:
http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=132
FERNANDES, Florestan. Sociedade de classes e subdesenvolvimento. São Paulo: Global Editora, 2008.
MARTINS, José de Souza. O Cativeiro da terra. São Paulo: C. Humanas, 1979.
NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
SCHWARTZ, Stuart. A América Latina na época colonial (cópia).
SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1976.

domingo, 17 de janeiro de 2010

De Geisel até (quase) Collor (continuação da saga desenvolvimentista)

Continuando posts anteriores sobre industrialização e desenvolvimento, irei de 73 até a década de 80, a priori: Geisel, II PND, Delfim, ciranda financeira e atraso tecnológico...
Fico devendo uma conclusão, que irá abranger nossos dois Fernandos.


Introdução

Os novos mecanismos de taxas de câmbio flexíveis, adotados pós 73, abriram as portas de uma sistemática especulação com moedas, origem esta dos movimentos bruscos do capital internacional (financeiro), que tornou inoperante os mecanismos de ajuste monetário dos balanços de pagamentos.
Após a ruptura definitiva do padrão monetário internacional (o fim de Breton-Woods), os EUA sofreram um desequilíbrio comercial crescente e adotaram políticas monetárias e cambiais que provocaram uma desvalorização lenta, mas contínua, do dólar até 78.
O choque de juros, promovido de FED em 79, representou uma inflexão das políticas monetária e cambial americana, recolocando o dólar no centro do “sistema financeiro mundial”, porém, gerou uma crise econômica mundial, ao levar várias empresas e países periféricos a bancarrota, forçando os demais países capitalistas industrializados a um ajuste recessivo.
Assim, por conta da progressiva flutuação das taxas de câmbio, como do aumento substantivo das taxas de juros, houve inexorável redução do dinamismo do comércio internacional, além é claro, do fator petróleo, que perfazia 13% das importações em 67, sobe para 20% em 74 e 22% em 75, com esta alta do preço internacional colaborando ( e muito!) no rombo da conta financeira do balanço de pagamentos (nossa dívida externa sobe de 3,4 bi US$ em 67, para 17,2 bi US$ em 74).
Além disso, o aumento dos custos correntes (petróleo), conduz à redução dos lucros e a um desestímulo do investimento. Claro que num “ambiente” capitalista, a redução da remuneração tentará ser compensada com reajuste de preços, porém, os produtos importados acabam por possuir elevação superior aos exportados, tanto por necessidade dos primeiros, como por ausência de dinamismo dos segundos, assim, engrossa-se o desajuste das contas nacionais, pois o aumento dos juros passa a ter um componente real, vide que a carga de juros constante passa a requerer para seu pagamento um maior volume de exportações.
Forma-se um círculo sinistro, onde o Brasil paga mais por petróleo, estes “petrodólares” invadem o “euromercado” de câmbio e voltam na forma de financiamento das nossas contas correntes deficitárias (necessário por conta do aumento do juros no mercado internacional).
Esta desestruturação da ordem econômica mundial, ao longo dos anos 70, seria também explicada numa ótica “schumpeteriana”, pelo esgotamento da onda de inovações, que seria um obstáculo ao moto-contínuo expansionista (e fundamental numa estrutura capitalista) ou os EUA não suportavam mais seu imenso déficit público e consagraram uma estratégia visando à manutenção de seu “status-quo” econômico-financeiro, com o fim de Breton-Woods, acionando a maior gráfica do planeta?
Na década de 80, inovações tecnológicas seriam introduzidas pelas principais economias capitalistas, porém, haverá um hiato (tecnológico) de nossa indústria, como veremos adiante...

II PND

As grandes dimensões de várias metas, a massa de recursos necessários internos e externos) envolvida, o reduzido prazo para executá-las (em 5 anos), irrealidade e inconveniência de algumas (programa nuclear, por exemplo), exigiriam (mesmo em 74) uma análise mais profunda sobre a viabilidade do II PND (Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento) no governo Geisel.
Além do mais, em fins de 75 já era claro que a economia mundial estava em grave crise (real e financeira) e que a alta do preço do petróleo não regrediria (pelo contrário, sofrendo novo aumento em 79), o que ocasionaria sérios problemas, por conta do aumento do “juros real”, lembremos que a carga dos juros constantes passa a requerer para seu pagamento um maior volume de exportações.
O II PND partia de uma identificação dos problemas (estruturais) que afetavam a economia nacional em fins de 73:
- Atraso no setor de bens de produção e alimentos;
- Forte dependência do petróleo;
- Tendência a um elevado desequilíbrio externo.
Esperavam resolver estes problemas de forma simultânea, com uma notável expansão do produto agregado, com as principais metas do governo:
- Expansão e modernização agropecuária;
- Expansão da indústria de base;
- Aumento de exportações;
- Maior absorção de tecnologia moderna;
- Desconcentração industrial;
- Reforço ao capital nacional privado e subordinação do capital estrangeiro aos objetivos econômicos fixados.
Neste último ponto, a “porca torce o rabo”, pois significaria uma guinada radical no padrão de acumulação, alterando as estruturas de consumo e de investimento, subordinando (parte) o investimento privado nacional e estrangeiro às metas propostas, bem como o sistema financeiro nacional.
Não só pelo momento (de crise) desfavorável, é fácil perceber a irrealidade política do plano...
Mesmo assim, o governo militar de Geisel, enxergava a necessidade de “apagar” o fracasso recessivo de 64-66 e esta retomada de crescimento, como forma de perpetuação do phoder, of course.
Como instrumentos, tratou de:
- Promover a transferência de parte da poupança privada (então destinada ao financiamento de bens de consumo duráveis) para sustentar os novos investimentos;
- Sob a forma de joint-ventures, atrair investimentos estrangeiros;
- (Re) direcionar os recursos do PIS-PASEP para o BNDE e este fomentar a produção de bens de capital;
- Diminuir a demanda de petróleo, com o programa “Pró-Alcool”;
- Construiu os pólos petroquímicos de Camaçari (Bahia) e Triunfo (RGS), visando a desconcentração industrial (política e econômica de São Paulo);
- Expansão do endividamento externo do setor público (em parte) às custas das Estatais.

Ciranda, cirandinha...

Apesar da ligeira desaceleração, compatível com a tendência mundial, de 74, um pouco acima de 7%, o PIB foi significativamente mais elevado que às economias não-exportadoras de petróleo, tanto desenvolvidas como subdesenvolvidas.
Porém, quanto ao produto industrial, registrou-se queda de 16% em 73, para 4,5% em 75, apesar destes números serem razoalvemente maiores, se confrontados com outros países.
Os sucessivos choques externos (incluindo aí a quadruplicação do preço do petróleo) entre 74 e 80 ampliam o déficit comercial, um desequilíbrio cada vez mais irreversível no comércio exterior.
Além deste (desequilíbrio no balanço de pagamentos), durante o II PND, graças a uma aceleração inflacionaria (erroneamente a inflação foi diagnosticada como inflação de demanda), acabará por generalizar uma indexação da economia.
Simonsen (de quem admiro os quatro volumes de “Teoria Microeconômica” da FGV), malignamente cria o que foi denominado de “ciranda financeira”, ou seja, o governo passa a emitir títulos da dívida, de acordo com os recursos que entram na economia (uma enxurrada de dólares), assim, cresce enormemente a dívida mobiliária. A dívida externa passa a gerar a expansão da dívida interna (lembremos que ao diagnosticar a inflação como de demanda, não se poderia trocar dólares livremente por cruzeiros, contraproducente no caso de uma política monetária restritiva).

Dr. Delfim

Delfim, ao assumir as rédeas da economia em 79, tenta desmontar a engrenagem da “ciranda”, rompendo o circuito dívida externa-dívida mobiliária e desinflar a dívida pública interna, adotando as seguintes medidas:
- Diminuição das reservas cambiais;
- Maxidesvalorização cambial e retirada de incentivos fiscais às exportações;
- Diminuição da taxa de juros.
Entretanto, neste mesmo ano, o II Choque do Petróleo (quem se lembra dos postos fechados nos fins de semana? Por conta do racionamento...) e a subida das taxas de juros internacionais, deteriorando nossa conta corrente que aliado à redução das reservas, gera pressão muito forte sobre o balanço de pagamentos.
O governo joga a toalha e opta por estratégia recessiva, para ajustar o balanço de pagamentos, elevando a taxa de juros internos, aliada a captação de um maior volume de recuros externos.
Entre 81-83, ardíamos em crise, com taxas negativas de crescimento do PIB, do produto industrial, crescente desemprego, queda dos salários reais (ou seja, perdem para tx de inflação). A dívida externa não para de crescer, em função dos empréstimos externos captados pelas estatais e em fins de 82, captulamos integralmente ao FMI, que passa a nos emprestar, somente se adotarmos as medidas aconselhadas (ou impostas?), buscando a qualquer preço o superavit na balança comercial, com uma política monetária e creditícia rígida, reduções e cortes no setor público.

Dança da Garrafa

Para completar o quadro, na década de 80, vivenciávamos um hiato tecnológico, pois o Estado e o setor privado não exerciam atividades de pesquisa e desenvolvimento, com a industria brasileira apresentando baixos níveis de produtividade e custos elevados, assim, perdendo competividade com as economias capitalistas avançadas.
Há profundo desequilíbrio na estrutura produtiva, com “gargalos” nas indústrias produtoras de insumos e intermediários básicos (aço, petroquímicos, celulose, etc.), além de ociosidade em segmentos da indústria de bens de capital, principalmente tratores, maquinas de terraplanagem e construção naval.
Os serviços de infra-estrutura (energia, transportes e comunicações) também constituem-se em gargalos, por conta da redução de investimentos e a defasagem nas tarifas, ao terem como conseqüência a redução da competividade da indústria.
Apesar do “Tcham” ainda não estar nas paradas de sucesso, já descíamos na boquinha da garrafa...

Fim (?)

Fica inexoravelmente impossível, efetuar qualquer análise de nosso subdesenvolvimento, segmentando o país, dentro do contexto internacional. Assim, deve-se tomar como ponto de partida esta totalidade: a economia capitalista mundial. Desenvolvimento e subdesenvolvimento são pólos de um mesmo processo, a acumulação capitalista mundial, onde infelizmente, as relações não são equilibradas.
Collor é eleito com um discurso neoliberal, assim como este (neoliberalismo) campeia em todo o mundo, novos tempos, onde se torna imperativo à abertura comercial e financeira ao capital internacional (para este é claro). O sistema liberal, por trás de enganosa “reciprocidade” (continua...)