sábado, 11 de outubro de 2014
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
"Voto Dilma, uma questão de bom senso" por Ladislau Dowbor
E o que importa mesmo é a dinâmica estrutural e de longo prazo. Aqui os dados são avassaladores. Temos os quase 40 milhões de brasileiros que saíram do buraco negro em que se encontravam, e isto em si já é quase milagroso, num país onde se criou uma ditadura por um miserável aumento de salário mínimo e fragmento de reforma agrária. Temos também os 20 milhões de empregos formais criados, um aumento do salário mínimo real da ordem de 70% e o menor desemprego da história, da ordem de 6%, dados que apontam para um marco de transformação estrutural. Aqui não há voo de galinha. Eu, por ofício de economista, acompanho os números. A esperança de vida ao nascer, efeito de alimentação, saúde e outros direitos básicos, passou de 65 para 74 anos: ou seja, o brasileiro tem praticamente 10 anos de vida a mais para falar como era bom antigamente.
Texto na íntegra em:
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Por que eu voto em Dilma, algo sobre o Dólar e a Doença Holandesa
Recentemente li lúcido texto do
Professor Bresser Pereira na “Carta Maior”, o qual transcrevo parte, onde ele
justificou (e endosso) porque este votaria em Dilma, em detrimento de Aécio ou Marina.
Observo que ele nem entra no mérito das propostas de Marina e Aécio de "independência" do Banco Central, que na verdade seria a total dependência ao "grande capital", digo total, pois hoje temos um misto de dependência ao capital com dependência (melhor seria influência) política.
Mas (nem
que seja assim) é nesta forma (atual) que acredito, o Bacen utilizado como
instrumento de política monetária, ajustando as torneiras da
liquidez, onde conseguimos algum equilibrio nos fundamentos
macroeconomicos.
Independência
do Bacen, é deixar a raposa tomar conta do galinheiro, já não basta termos tido
o Sr. Armínio Fraga como presidente da instituição no governo FHC?
No mesmo texto o Professor
Bresser, talvez a maior autoridade no que os economistas denominam de “Doença
Holandesa”, (do inglês Dutch disease) situação econômica relacionada entre a
exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro, quando a
abundância de recursos naturais geraria vantagens comparativas para o país que
os possui, levando-o a se especializar na produção desses bens e
consequentemente a não se industrializar ou mesmo (numa situação crítica) a se
desindustrializar – o que, a longo prazo, inibiria (inibirá) o processo de
desenvolvimento econômico.
Discorreu sobre nossa apreciada
taxa de câmbio, correlacionando a mesma com o problema acima:
“A política de
crescimento com poupança externa (de déficit em conta-corrente) e a política de
âncora cambial para controlar a inflação apreciam o câmbio no longo prazo. Elas
são responsáveis por cerca de mais 10 pontos percentuais de apreciação da taxa
de câmbio que devem ser somados aos 25% acima referidos. Logo, a desvantagem
total das empresas brasileiras em relação às empresas de outros países que
exportam para os mesmos mercados que nós é, em média, de 35% ( 25% 10%), e a
desvantagem total em relação às empresas estrangeiras que exportam para o
mercado brasileiro é de 23% (35% – 12%). Estas duas desvantagens desaparecem
nos momentos de crise financeira, que, mais cedo ou mais tarde, decorrem
necessariamente dessa sobreapreciação”.
Enfim, justificou sua posição em Dilma:
“Vou
votar pela reeleição de Dilma Rousseff, não por que seu governo tenha sido bem
sucedido, mas porque é ela quem melhor atende aos critérios que adoto para
escolher o candidato. São dois esses critérios: quanto o candidato está
comprometido com os interesses dos pobres, e quão capaz será ele e os partidos
políticos que o apoiam de atender a esses interesses, promovendo o
desenvolvimento econômico e a diminuição da desigualdade.
$
Dilma atende ao primeiro
critério melhor do que Marina Silva e muito melhor do que Aécio Neves. Isto nos
é dito com clareza pelas pesquisas de intenção de voto, onde ela vence na faixa
dos salários mais baixos, e reflete a preferência clara pelos pobres que os
três governos do PT revelaram. O mesmo se diga em relação ao segundo critério
na parte referente à desigualdade. O grande avanço social ocorrido nos doze
anos de governo do PT tem um valor inestimável”.
sábado, 19 de julho de 2014
Pequenas Considerações sobre Mercados, Crise, Consumo e Crédito...
Delfim
Netto na introdução de “O espírito animal” de Akerlof e Shiller (2010), sugere
que devemos abandonar a suposta racionalidade dos mercados, para com base
nas teorias do comportamento coletivo (...) entender o comportamento de manada,
quando o consumidor voraz passa a ser parcimonioso e o empresário
excessivamente prudente.
[Qual]
a razão pela qual a coerência deixa de existir, de tempos em tempos, ou seja, o
motivo que torna a economia tão suscetível a ameaças ou até mesmo a verdadeiras
e profundas depressões?(MINSKY, 2010, p.161).
À medida que a euforia do boom se propaga, as empresas aceitam planos
de financiamentos cada vez mais arriscados. A partir daí, o menor choque,
aparentemente acidental, já revela este desequilíbrio latente entre rendimento
financeiro e rendimento de capital produtivo e precipita uma crise (BOYER,
1990, P. 32).
Da
mesma forma que a teoria do multiplicador keynesiano explica como cada dinheiro pode ser criado, também elucida
como a cada dinheiro não gasto,
corresponderia uma cadeia de corte de despesas. O mesmo multiplicador, que foi
denominado antes por Marx de capital fictício, quando haveria uma necessidade
de estender e transpor os obstáculos da circulação e da esfera da troca, mas
não somente em função especulativa de mercado de capitais, mas em razão também da
valorização das marcas, pois a aceitação tácita desta valorização,
necessariamente ajudaria o capital a transpor os limites da sua necessidade de
multiplicação.
Podemos
enxergar tanto determinado fetiche marxista, observações de Smith sobre a
emulação das classes sociais, questionamento sobre a perenidade da demanda
agregada keynesiana, o modo de despertar o desejo de consumir na visão schumpeteriana,
last but not least,
o
fomento ao crédito de Kalecki. Porém perguntas sempre ficarão no ar: até que
pondo poderá ir à desigualdade do consumo?
A
atual vem sendo combatida (e também o foi em 1929) por vigorosos incentivos
governamentais e no Brasil estímulo a tomada de crédito, objetivando alavancar a
demanda, face que em nossas observações, a dificuldade não está em fazer
comprar, mas sim em como conseguir pagar, pois será que este desejo de consumir
não é latente na maioria de nós?
O
que faremos, nesta brincadeira de dança das cadeiras, quando a música parar?
(Eu
acredito que) a prosperidade exige mais do que livres mercados...
Referências (Além da óbvias: Marx, Kalecky, Keynes e Schumpeter) :
BOYER, Robert. A teoria da regulação – Uma análise crítica, São Paulo: Nobel, 1990.
MINSKY, Hyman P., Estabilizando uma economia instável, São Paulo: Novo Século Editora, 2010.
SCHILLER, Robert, AKERLOF George, O
espírito animal: como a psicologia humana impulsiona a economia e a sua importância
para o capitalismo global, Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Grande Demais para Quebrar (com legendas)
Ben Bernanke, o economista que presidia o Federal Reserve, Fed, o Banco Central americano, na época em que a ação se passa, e preside até hoje, diz lá pelas tantas, no filme, que passou toda a sua vida acadêmica tentando estudar e compreender os fatores que levaram à grande crise financeira iniciada em 1929, a origem da Grande Depressão, a maior crise da história do capitalismo.
Grande Demais Para Quebrar – uma beleza de produção, com um elenco cheio de grandes atores – tem a ousadia de retratar como se deu a grande crise financeira de 2008, aquela cujos efeitos perduram até hoje, e que só encontra paralelo com a de 1929.
É uma ousadia e tanto...
(texto completo no site: http://50anosdefilmes.com.br/2011/grande-demais-para-quebrar-too-big-to-fail/)
Link com o filme completo e com legendas: https://archive.org/details/Grande.Demais.Para.Quebrar
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Vantagem da Renda Fixa fica melhor ainda em Fundos de Previdência
Voltou o otimismo com a Renda Fixa face a
perspectiva de estabilidade da Selic. Depois das sucessivas altas dos juros,
iniciadas na reunião do Copom de abril de 2013, tudo indica que o Banco Central
deve interromper o ciclo de aumento da taxa básica.
O indicador que mede o retorno dos títulos
de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional negociados no mercado secundário
(IMA) acumula alta de 5,23% em 2014, até dia 16 de maio. No mesmo período, a
variação do CDI foi de 4,54% e o Ibovespa subiu 4,79%.
A ótima rentabilidade da Renda Fixa neste
ano contrasta com o péssimo retorno no ano passado, por conta do movimento de
redução da taxa básica de juro. O desempenho em 2013 foi tão ruim que, pela
primeira vez desde que começou a ser calculado, o IMA teve variação negativa em
um período de janeiro a dezembro, quando mesmo os investidores que alocaram
somente em papéis do governo amargaram prejuízos.
Talvez o “pior” exemplo tenha sido as
NTN-Bs, corrigidas pelo IPCA, pois mesmo com alta da inflação, os títulos com
vencimento em 2035 com distribuição de rendimentos semestrais tiveram variação
negativa de -19% de janeiro a dezembro de 2013 e os títulos de mesmo prazo, mas
com pagamento de principal e juros apenas no resgate, negociados exclusivamente
no Tesouro Direto, tiveram perdas ainda maiores: -32% no período.
Uma das consequências mais visíveis da
queda de preço dos papéis foi a queda do retorno dos fundos de previdência. O
que ocasionou a diminuição do fluxo de recursos para a modalidade. Mas observe
que esta “queda” foi apenas para quem realizou venda de cota neste prazo
(2013), ou seja, efetuou resgates. Quem manteve posição, está recuperando as
perdas neste semestre e melhor ainda, quem aproveitou o momento e aportou
recursos (face a precificação menor das cotas) está ganhando (em previdência)
este ano, comparado a outros ativos de risco semelhante.
A rentabilidade, como de costume, está
influenciando o fluxo de aplicações e resgates das diferentes modalidades. Os
fundos de previdência voltaram a captar de forma mais significativa e a
poupança registrou o primeiro mês com resgates desde 2012, ou seja, começa a
ocorrer migração de capital de valores alocados em Poupança para Fundos de
Previdência, face a expectativa de melhor rentabilidade, aumentando
significativamente o Patrimônio Líquido deste perfil de fundo.
A justificativa econômica é o fraco ritmo
de expansão dos negócios. A inflação, apesar de continuar em nível elevado, não
parece mostrar tendência de alta, o comércio começa a “chiar”, as principais
linhas de produção idem com o crédito – fomentador do consumo – mostrando
desaceleração no último mês.
Mantida a interrupção de alta da Selic (até
mesmo porque já se enxerga um gargalo na ponta final: o consumidor e tomador de
crédito), a taxas dos títulos públicos irão recuar, sendo propício para
aplicações em Renda Fixa, sendo o melhor “produto” os Fundos de Previdência,
por conta da vantagem tributária, além de outras especifidades, como o
planejamento sucessório.
domingo, 8 de junho de 2014
Demolição sem projeto
Demolição sem projeto
Carlos Lessa
(jornal Valor Econômico
em 04/06/2014)
O massacre, no mês passado, de uma dona de casa
em Guarujá, perto de São Paulo, é apavorante. Houve o vazamento de um retrato
falado, feito em 2012 pela polícia do Rio de Janeiro, de uma suposta assassina
de crianças em rituais de magia negra na Baixada Fluminense. Um periódico local
o reproduziu e a imagem circulou pela internet nas mídias sociais.
Uma dona de casa cristã recolhe sua pequena
Bíblia que estava esquecida na igreja local, faz compras no mercado e, ao sair,
dá uma fruta para uma menina que estava na calçada. Alguém gritou "é a
bruxa" e a senhora foi imediatamente silenciada, teve sua bolsa aberta e
revistada, onde encontraram o retrato de duas crianças e um livro de capa
vermelha. A partir daí, foi imobilizada e mortalmente agredida por um grupo de
homens, sendo que mais de cem moradores assistiram ao massacre. Os retratos
eram das duas filhas da senhora, e o livro de capa vermelha era sua Bíblia.
Queimar bruxas foi frequente na Idade Média. Em
1692, em Salém, perto de Boston, 19 mulheres foram enforcadas e uma delas
esmigalhada pela população em pânico quanto a bruxas. O episódio em
Salém-Guarujá é a mais dramática evidência noticiada da total e absoluta
desconfiança no ser humano, na Justiça e na polícia. O justiçamento histérico é
um pesadelo. É indicador de uma terrível desagregação da confiança na ordem
pública; marca a evolução dos homicídios registrados que, nas estatísticas dos
últimos 12 meses, atingiu 56 mil brasileiros.
O justiçamento histérico é indicador de
uma terrível desagregação da confiança na ordem pública e na Justiça
Os indicadores de desordem exigem uma recuperação
da trajetória genética. Em 1930, tem início a Era Vargas que - com Vargas,
contra Vargas e sem Vargas - se prolongou até os anos 80. Havia um projeto
nacional, que perseguia a industrialização e a urbanização como um movimento
transformador que iria produzir uma transformação social no Brasil. A década
dos 80 foi um período balizado pelo fim negociado com a ditadura militar e a
promulgação da Constituição de 1988.
O desvio da eleição direta evitou passar a limpo
o autoritarismo brasileiro e a Constituição recolheu o sonho da justiça social,
com a preservação dos instrumentos ligados a meio século de nacional-desenvolvimento.
A devastadora aceleração inflacionária passa a ser acompanhada de uma rápida
desconstrução da Constituição; a prática das Medidas Provisórias permite
distorções no sistema de poderes republicanos. A soberania começa a ser erodida
pela adoção de orientações do Consenso de Washington.
Fernando Henrique Cardoso, eleito presidente da
República, afirma que "terminou a Era Vargas" e incorpora
procedimentos demolidores da soberania e corrosivos do Estado nacional. O
binômio privatização-desnacionalização modifica as forças produtivas do país. O
modesto crescimento econômico é aceito sem a formulação de nenhum projeto
nacional, a não ser que se aceite a adesão irrestrita à globalização e à
consigna de "exportar é a solução". A exportação crescente de
matérias-primas e alimentos corresponde a uma atrofia do sistema produtivo
industrial e à redução significativa da taxa de investimento. A figura do
empreiteiro é substituída pela do banqueiro.
Na entrada do novo milênio, sem a explicitação de
qualquer novo projeto nacional, o Brasil, após as vicissitudes do opressor
endividamento externo, entra numa fase singular, aonde a relação de trocas se
move a favor dos preços de matérias-primas e alimentos, combinada com a queda
de preço das importações.
A partir de 2002, tem início a prioridade aos
sonhos sociais. Entre 2003 e 2012, com as condições excepcionalmente favoráveis
do comércio exterior, houve um crescimento da renda da população brasileira,
calculada pelo IBGE (Pnad), maior que o crescimento da economia. O Instituto
Data Popular estima que 54% da população do país fazem parte da classe média.
Porém, na ausência de qualquer projeto nacional, a macroeconomia permaneceu
atrelada aos critérios do Consenso de Washington: houve continuidade nas privatizações,
foram mantidas as regras para os vitoriosos bancos, e ausência de qualquer
visão estratégica de longo prazo. O Projeto Bolsa Família é socialmente
meritório; faz contraponto com a espetacular lucratividade patrimonial dos
bancos e a trajetória fugaz das empresas X, de Eike Batista.
O endividamento das famílias sustentou a
atividade econômica e garantiu a modesta evolução do segmento metal-mecânico e
eletro-eletrônico. Ao mesmo tempo, as cadeias produtivas se atrofiaram e as
facilidades de importação, combinadas com o jogo financeiro, mantiveram em
nível medíocre a taxa de investimentos. Houve a combinação de uma melhoria
social com uma estagnação relativa.
Krugman diria que "as ações de governo
restauraram a confiança financeira, porém não repuseram a prosperidade".
Nos EUA, deplora-se a carga do alto endividamento das famílias como o legado
perverso da crise imobiliária. O Fed foi a favor de salvar todos os bancos, mas
contra salvar famílias endividadas. No Brasil, estamos no limiar da alta e
crescente dívida familiar ver corroído seu sistema de sustentação da atividade
econômica. Isto colocará o dilema da "autonomia" do Banco Central.
Salém-Guarujá explicita dramaticamente a crise de
representatividade política, de confiabilidade nas instituições.
A demolição da superestrutura institucional do
Estado nacional-desenvolvimentista não abriu caminho a nenhum projeto de
reestruturação do setor público. Infelizmente, multiplicam-se também os
indícios de demolição da superestrutura cultural brasileira.
Desenho: Tubarões Voadores (Luiz Gê)
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