domingo, 1 de agosto de 2010

Aceita um cafézinho?


“Um país que é exportador de cana, do seu produto derivado ou de petróleo não vai a lugar nenhum (...) um país que tem só uma pauta de commodities é um país subdesenvolvido...”
(Maria da Conceição Tavares
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Numa ótica marxista, dá-se a exploração por conta do capitalista ser dono do capital e dos meios de produção, porém, num olhar liberal, esta dita exploração seria na realidade um prêmio pelo risco, dado haver a possibilidade do empresário falir.

Obviamente o tema é extenso e deveras explorado e não é o objeto fundamental do estudo deste trabalho, nem sendo tanto competente para tal, mas serve como bom introdutório para apontar direções, nas quais ficava retido grande parte do ganho com o café, se via exploração ou prêmio de risco.

Vivemos no início da República e final do Império, freqüentes oscilações cambiais e é notório que qualquer movimento brusco no câmbio, irá favorecer a especulação nas operações com o mesmo, porém, estas operações eram exercidas quase exclusivamente pelos bancos ingleses, que limitavam suas atividades praticamente a este tipo de transação, conforme descrito por Nícia Vilela:

“A atitude dos bancos ingleses, aliás, limitando suas atividades quase que só às operações de câmbio, num país faminto de capitais e de crédito...”

O comerciante importador no Brasil, era em geral estrangeiro e como visto, ao remeter lucros para o exterior, contribuía para o desequilíbrio da balança de pagamentos e já na República, manifestava-se contrário a qualquer forma de empréstimo ou subsídio às indústrias nacionais, naturalmente por ir contra seus interesses.

O comércio exportador de café, a mesma feição, também sempre foi intermediado em sua maioria por estrangeiros, “...o exportador, geralmente agente de grandes empresas estrangeiras (...) comprimir ainda mais os preços do produto...” (DELFIM).

A situação se torna até mesmo contraditória (no mínimo), quando por conta do período de valorização, transfere-se para uma empresa inglesa a tarefa de agente comprador do governo. Segue texto de obra da época, de Isaultino Costa, com detalhe para a grafia original:

“Transferida para a Brazilian Warrant Company, a função de agente comprador do governo (...) empreza, também extrangeira (...) grande especuladora e uma grande commerciante (...) detentora que era e é de todas as acções da Caixa Registradora (...) soberana e absoluta dominadora do mercado (...) Compradora e vendedora de café em conta própria e por conta do governo...”

Ou seja, se o Brasil detinha o monopólio do cultivo, uma empresa estrangeira detinha o monopólio do comércio.

Assim, este plus, ganho adicional, ou qualquer outra denominação sobre lucro e suas variáveis, ficava na sua maior parte, sempre “fora” do Brasil, ancorados em capital internacional seja na mão de rentistas, especuladores de câmbio ou especuladores de estoques.

A economia sempre andará longe de qualquer consenso, enquanto enraizada em conotações ideológicas. Todos sabem que o valor futuro (FV) difere do valor presente (PV) em função do tempo (n) e da taxa de juros (i), mas enquanto não chegarmos ao átomo do que é, ou significa esta diferença, andaremos poucos passos.

Alcindo Guanabara, jornalista e senador da República, em sessão de 1895:

“Em 15 anos, só pelos portos do Rio de Janeiro e Santos exportamos café no valor de £ 333.000.000. Tão enorme soma fundiu-se e desapareceu, ninguém sabe onde pára. Somo pobres e não capitalizamos...”

Cento e quinze anos depois, trago a revista do IPEA: Desafios do desenvolvimento – edição especial, datada de janeiro de 2010:

“Precisamos elevar o grau de industrialização daquilo que exportamos, ou seja, agregar valor às exportações na área de insumos básicos, ferro, papel, celulose, grãos (...) ampliarmos a cadeia produtiva interna...” (Roberto Cavalcanti, p.9).

“...as commodities tem baixo valor adicionado por trabalhador, portanto geram pouco PIB por trabalhador. Além disso, as commodities tem um crescimento lento...” (João Paulo de Almeida Magalhães, p. 26).

“...não sou contra a exportação de primários, mas todos produtos primários que exportamos permitiriam agregação de valor: a soja poderia ser óleo de soja, a celulose ser papel (...) o Estado pode entrar nisso como indutor...” (Raphael de Almeida Magalhães, p.64).

“Um país que é exportador de cana, do seu produto derivado ou de petróleo não vai a lugar nenhum (...) um país que tem só uma pauta de commodities é um país subdesenvolvido...” (Maria da Conceição Tavares, p. 125)

“Este é um país que pode ter as duas coisas: pode ser um grande exportador de commodities e pode ter um protagonismo adequado na exportação de manufaturados. Estamos fazendo uma troca errada, de exportar couro em vez de exportar calçados, madeira em vez de móveis...” (Luiz Gonzaga Belluzo, p. 134).

Sei do quanto soou repetitivo, mas chamou-me a atenção, diferentes economistas, diferentes correntes, diferentes motivações ideológicas, mas semelhantes afirmações quanto as necessidade de transformações estruturais de nossas exportações, no fim, apenas agregar valor as mesmas, fortalecer nosso comércio internacional e finalmente nossa balança de pagamentos.

Mas hoje (recentemente) temos a seguinte situação, quando somos o maior produtor e exportador de café, em 2008 foram quase 46 milhões de sacas, o Brasil ainda está longe de alcançar a Itália e a Alemanha, maiores exportadores do mundo, quando se trata de café industrializado.

Sabemos que a Alemanha é a maior compradora do café verde (em grãos) brasileiro. Importa um dos melhores cafés do mundo, agrega valor ao produto, quando torram e moem os grãos para posterior venda do mesmo.

De acordo com Nathan Herszkowicz (2005), Diretor-executivo da ABIC e Presidente da Câmara Setorial de Café de São Paulo:

“O mundo processa e reexporta o café brasileiro numa quantidade cinco vezes menor da que o Brasil exporta na forma de commodities (grãos verdes) (...) embora com maior valor agregado...”

A exportação de cafés industrializados é relativamente nova: começou, oficialmente, em 2002, ou seja, menos de 8 anos, mas o Brasil vem caminhando para alcançar seus concorrentes internacionais, como Itália e Alemanha, maiores exportadores do mundo, quando as exportações de café torrado passam de 11.904 sacas de 60kg em 2000 para 132.070 em 2008.

As torrefadoras brasileiras mostram claramente que estão aprendendo a agregar valor ao produto e disputando mercado, ao venderem para países da Europa, Ásia, África, América do Norte etc. Esses cafés para exportação sendo totalmente processados, industrializados e embalados em território nacional, assim acabam gerando mais empregos e renda para os brasileiros, mesmo que o controle acionário de cerca de 30% em grau de participação (Quadro), seja de empresas estrangeiras, pois apesar da inexorável remessa de lucros, adiciona-se valor ao PIB.


Um comentário:

Rosali Alves Colares disse...

Olá Renato
Obriugada por visitar meu blog e comunicar. Fico feliz por tyer gostado do meu trablho, qualquer coisa entramos em contato sim!