quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Thorstein Veblen, Bucetinhas e A Revolução Marxista


As instituições não são novidade, vide que os economistas clássicos já pensavam claramente em instituições; a escola histórica alemã foi explicitamente institucionalista; e nos Estados Unidos, no começo do Século XX, houve uma escola com esse nome, cujo principal representante foi Thorstein Veblen (este cara aí da foto, parecido com o Tom Selleck-Magnum).

Principal figura, (figura não! Figuraça!) desta Escola, Thorstein Bunde (que de bundão não tinha nada) Veblen foi um filósofo, sociólogo e economista altamente controvertido.

Nasceu em Wisconsin de pais de origem norueguesa. Estudou nas universidades John Hopkins, Cornell e Yale, onde obteve o doutorado em 1884. Veblen trabalhou nas universidades de Chicago (de onde foi expulso por manter relações sexuais com alunas), Stanford (de onde lhe obrigaram a ir embora por sua atitude crítica para com os homens de negócio) e Missouri (desta não foi posto para correr?), sendo que, em nenhum caso, pôde superar o nível de professor auxiliar (porém, com várias bucetinhas no currículo). Apesar de crítico do "stablishment", foi escolhido, por seus colegas de profissão, para a presidência da American Economic Association, provavelmente porque todos também olhavam, para além das curvas de oferta e demanda, olhavam para as curvas (nem tanto, pois sabemos o quanto as americanas pré-silicone são “retas”) das alunas...

Com Veblen, o estudo das instituições ganhou este espaço, por conta de sua importância dada, visto que os homens perceberam com mais clareza que, através delas, podem alcançar resultados sociais e liberdade, o bem-estar e a justiça.

Chang em seu estimulante “Chutando a Escada”, destaca quais seriam as ditas “boas” instituições que levariam (e levaram) ao desenvolvimento, os países hoje assim classificados.

A Escola Institucionalista surge como forma de compreender a interação humana, uma crítica implícita à Escola Neoclássica (e ao laissez-faire). As instituições fornecem sustentação à sociedade, são sistemas de regras estabelecidas e que organizam as interações sociais, mesmo quando as mesmas instituições, restringem (de alguma forma) a interação humana, seja por restrições formais (regras, leis, constituições) ou restrições informais (normas de comportamento, convenções e códigos de conduta auto-impostos).

O Velho Institucionalismo Americano (Old Institutional Economics – OIE), do qual as figuras centrais foram (o citado) Thornstein Veblen e (também) John Commons, destacava a importância central das instituições e da mudança institucional rejeitando o enfoque no indivíduo e dando atenção primordial ao coletivo e na sua preponderância sobre o agente individual, destarte, os próprios mercados deveriam ser vistos como instituições.

Se os primeiros economistas não foram tão bem sucedidos em explicar o que mantém a sociedade unida diante dos interesses divergentes, poderíamos então afirmar que a visão marxista estaria certa, face aos interesses (segundo ele) opostos entre capitalistas e proletariado? Então, nesta mesma linha, por que não houve, então, a revolução também preconizada por Marx, diante da falência (novamente, segundo Marx) inexorável do sistema?

Veblen poderia ser a resposta:

“ As classes mais baixas não estão querendo brigar com as mais altas...não procuram destruir seus dominadores; eles procuram emulá-los(...)seu objetivo não é se livrar de uma classe superior, mas sim ascender até ela...”

Resumidamente, as instituições são importantes para o desenvolvimento econômico porque o Estado, enquanto agente fundamental da ação coletiva é uma instituição (primeira-uma espécie de raiz das demais) capaz de promover uma estratégia de desenvolvimento e ao mesmo tempo ser o “juiz” neste ringue formado entre as classes sociais. Assim, o desenvolvimento econômico será quase invariavelmente fruto de uma estratégia nacional.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Vai Morar com o Diabo



Escutei ontem no rádio do carro, uma gravação que me chamou a atenção, procurei na rede e achei esta aí ao lado, no link, da música título do post, onde Riachão canta com Caetano (CD de 2001). No Youtube, pode-se achar outras versões, tanto a que escolhi, com desenho animado para ilustrar, versão da Cássia Eller, como uma mui bela, do Grande Riacho com Beth Carvalho. Interessante nessa, são as legendas em espanhol, mostrando como alguns gringos apreciam uma boa dose de cultura.
Apesar de reconhecido pela crítica e por grandes artistas da MPB, Riachão nunca conseguiu se inserir no mercado, afinal, quem não “vende” ou é vendido – está fora!
Os shows sempre raros e também poucos os registros. Em 1972, Caetano e Gil voltam do exílio em Londres. Em Salvador, pretendem escolher a música de um compositor baiano para marcar este retorno e a escolhida foi “Cada Macaco no seu Galho”, de Riachão, que acaba estourando nas rádios.
Nos anos de chumbo, Riachão teve um samba proibido pela censura. A música se chamava “Barriga Vazia” e a letra dizia: “Eu, de fome, vou morrer primeiro / você, de barriga, também vai morrer um dia”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Rosa Luxemburgo



O cinema pode ser realmente a sétima arte. Porém por que filmes como o “pedacinho” acima não passam no Brasil? Escrevo pedacinho, porque estes poucos minutos valem por 1000 “Missões Impossíveis”. O discurso de Rosa tem mais ação do que o agente Ethan Hunt pulando de um prédio em chamas.
Durante muito tempo, o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder planejou dirigir um filme sobre a vida de Rosa Luxemburgo. Em 1982, quando ele morreu, Margarethe von Trotta completou, com Die Geduld der Rosa Luxemburg sendo lançado em 1986. Passou por aqui? Está nas locadoras? Ou como gosto de escrever: A quem interessa tanta alienação? Como irá ver abaixo, talvez a "rede" ainda nos salve...
Tomei conhecimento do trabalho de Rosa, somente por citação en passant da mesma na faculdade, como normalmente ocorre com autores que se aprofundam nas obras de Marx. Coube ao meu instinto curioso, procurar e achar o excelente “A Acumulação do Capital”, que defende a tese de que a necessidade de expansão permanente do capitalismo é a causa básica do imperialismo – a submissão econômica dos países de economia atrasada aos altamente industrializados. Rosa faz uma exposição histórica do problema de reprodução e acumulação do capital, tentando inclusive resolver algumas das colocações que não foram aprofundadas por Marx (questões do Livro II de O Capital – parece que aquilo que foi publicado após sua morte ficou um tanto incompleto, sem o parecer ou conclusão final do próprio Marx).
Mas o que (também) admiro nesta mulher, é sua crítica ao dogmatismo, particularmente nos primórdios da Revolução Russa, quando disse, referindo-se à ditadura estabelecida pelos bolcheviques (apesar do seu apoio a mesma), em 1917: “Liberdade apenas para os que apóiam o governo, apenas para os membros do partido, não importando quantos sejam, não é absolutamente liberdade. Liberdade é sempre a exclusivamente a liberdade de quem diverge do nosso modo de pensar”.
Rosa Luxemburgo defendeu a liberdade entre 1870 e 1919, quando foi fuzilada por oficiais monarquistas alemães.
Voltando ao filme, dá para "baixar" o mesmo, clique no link e faça o passo à passo:
http://www.filesonic.com/file/1576286164/rosaluxemburgo.avi

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012 - Ruídos ou Sinais

Foto: Globo ONLINE, praia de Copacabana, primeiros minutos de 2012
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Dentre as várias artes, aprendidas pelos economistas, uma de muita importância é a diferenciação entre ruídos e sinais, ou seja, entre o há de importante nas notícias e pode virar fogo e o que normalmente não passa de fumaça, até mesmo proposital.

As notícias continuam: A Itália realizou pregão de títulos, pelo curtíssimo prazo de vencimento de 06 meses, ou seja, apenas para apagar o incêndio da sua enorme dívida interna, plantada pelo Sr. Berlusconni; o dólar caiu ontem, mas fechou o mês com expressivo índice de 3,32% de alta, ou seja, bom para quem exporta e ruim para quem importa, já que a moeda nacional está mais fraca perante o mesmo do que há um mês atrás – no ano houve uma alta acumulada de 12,32% o que comparado com o rendimento acumulado da poupança no mesmo período (7,50%), dá um passeio de saltar os olhos; O governo espanhol anunciou déficit de 8% e que seguirá a cartilha ortodoxa (leia-se neoliberal) de ajustes, ou seja, desemprego colhido via pacote de austeridade; Nos EUA, a venda de imóveis voltou a crescer (7%) e a fábrica de veículos Ford cresceu 15% tendo como referência 2007, ou seja, está crescendo pós-crise o mercado interno americano, enquanto o europeu (pelo menos Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal) derretem; A China sinalizou que vai flexibilizar sua moeda – Yuan – flexibilizar neste caso é não se manter tão desvalorizado perante o dólar, assim, ganham importadores em lugar dos exportadores; O Indicador Serasa de Inadimplência aumentou 9,8%, em novembro na comparação com outubro, registrando a segunda maior elevação do ano. A taxa mais alta foi registrada na passagem de fevereiro para março quando o indicador marcou 10,8%. Comparada a novembro do ano passado, a inadimplência cresceu 32,5% e, no acumulado do ano, 18,6%.

O ano novo, inexorável chegou, se será bom ou ruim, não sei, pois ainda estou tentando decifrar, se são ruídos ou sinais.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Levante sua Voz



Captei recentemente no blog do Prof. Toni, rastreei e “acho” que o primeiro a postar foi o Brizola Neto no Tijolaço, em dezembro de 2009, ou seja, faz 2 anos. Vídeo imperdível, que infelizmente apesar de toda minha tentativa de estar antenado, eu confesso: perdi.

Veja de forma didática, como e porquê você recebe tanto lixo naquele retângulo que transmite imagem e som, como também no rádio, jornais e revistas

Vamos a um pouco de "teoria": Em filosofia política, fala-se de alienação para designar a condição do trabalhador que, à semelhança de uma peça de engrenagem, integra a estrutura de uma unidade de produção sem ter nenhum poder de decisão sobre sua própria atividade nem direitos sobre o que produz. Transcendendo o âmbito da produção, a alienação se estende às decisões políticas sobre o destino da sociedade, das quais as grandes massas permanecem alijadas, e mesmo ao âmbito das vontades individuais, orientadas pela publicidade e pelos meios de comunicação de massas.

Por fim, a quem interessa tanta alienação?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

De Geisel até (quase) Collor (continuação da saga desenvolvimentista)



Introdução

Os novos mecanismos de taxas de câmbio flexíveis, adotados pós 73, abriram as portas de uma sistemática especulação com moedas, origem esta dos movimentos bruscos do capital internacional (financeiro), que tornou inoperante os mecanismos de ajuste monetário dos balanços de pagamentos.

Após a ruptura definitiva do padrão monetário internacional (o fim de Breton-Woods), os EUA sofreram um desequilíbrio comercial crescente e adotaram políticas monetárias e cambiais que provocaram uma desvalorização lenta, mas contínua, do dólar até 78.
O choque de juros, promovido de FED em 79, representou uma inflexão das políticas monetária e cambial americana, recolocando o dólar no centro do “sistema financeiro mundial”, porém, gerou uma crise econômica mundial, ao levar várias empresas e países periféricos a bancarrota, forçando os demais países capitalistas industrializados a um ajuste recessivo.

Assim, por conta da progressiva flutuação das taxas de câmbio, como do aumento substantivo das taxas de juros, houve inexorável redução do dinamismo do comércio internacional, além é claro, do fator petróleo, que perfazia 13% das importações em 67, sobe para 20% em 74 e 22% em 75, com esta alta do preço internacional colaborando (e muito!) no rombo da conta financeira do balanço de pagamentos (nossa dívida externa sobe de 3,4 bi US$ em 67, para 17,2 bi US$ em 74).

Além disso, o aumento dos custos correntes (petróleo), conduz à redução dos lucros e a um desestímulo do investimento. Claro que num “ambiente” capitalista, a redução da remuneração tentará ser compensada com reajuste de preços, porém, os produtos importados acabam por possuir elevação superior aos exportados, tanto por necessidade dos primeiros, como por ausência de dinamismo dos segundos, assim, engrossa-se o desajuste das contas nacionais, pois o aumento dos juros passa a ter um componente real, vide que a carga de juros constante passa a requerer para seu pagamento um maior volume de exportações.

Forma-se um círculo sinistro, onde o Brasil paga mais por petróleo, estes “petrodólares” invadem o “euromercado” de câmbio e voltam na forma de financiamento das nossas contas correntes deficitárias (necessário por conta do aumento do juros no mercado internacional).
Esta desestruturação da ordem econômica mundial, ao longo dos anos 70, seria também explicada numa ótica “schumpeteriana”, pelo esgotamento da onda de inovações, que seria um obstáculo ao moto-contínuo expansionista (e fundamental numa estrutura capitalista) ou os EUA não suportavam mais seu imenso déficit público e consagraram uma estratégia visando à manutenção de seu “status-quo” econômico-financeiro, com o fim de Breton-Woods, acionando a maior gráfica do planeta?
Na década de 80, inovações tecnológicas seriam introduzidas pelas principais economias capitalistas, porém, haverá um hiato (tecnológico) de nossa indústria, como veremos adiante...

II PND

As grandes dimensões de várias metas, a massa de recursos necessários internos e externos) envolvida, o reduzido prazo para executá-las (em 5 anos), irrealidade e inconveniência de algumas (programa nuclear, por exemplo), exigiriam (mesmo em 74) uma análise mais profunda sobre a viabilidade do II PND (Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento) no governo Geisel.

Além do mais, em fins de 75 já era claro que a economia mundial estava em grave crise (real e financeira) e que a alta do preço do petróleo não regrediria (pelo contrário, sofrendo novo aumento em 79), o que ocasionaria sérios problemas, por conta do aumento do “juros real”, lembremos que a carga dos juros constantes passa a requerer para seu pagamento um maior volume de exportações.
O II PND partia de uma identificação dos problemas (estruturais) que afetavam a economia nacional em fins de 73:

- Atraso no setor de bens de produção e alimentos;

- Forte dependência do petróleo;

- Tendência a um elevado desequilíbrio externo.

Esperavam resolver estes problemas de forma simultânea, com uma notável expansão do produto agregado, com as principais metas do governo:

- Expansão e modernização agropecuária;

- Expansão da indústria de base;

- Aumento de exportações;

- Maior absorção de tecnologia moderna;

- Desconcentração industrial;

- Reforço ao capital nacional privado e subordinação do capital estrangeiro aos objetivos econômicos fixados.

Neste último ponto, a “porca torce o rabo”, pois significaria uma guinada radical no padrão de acumulação, alterando as estruturas de consumo e de investimento, subordinando (parte) o investimento privado nacional e estrangeiro às metas propostas,bem como o sistema financeiro nacional.

Não só pelo momento (de crise) desfavorável, é fácil perceber a irrealidade política do plano...

Mesmo assim, o governo militar de Geisel, enxergava a necessidade de “apagar” o fracasso recessivo de 64-66 e esta retomada de crescimento, como forma de perpetuação do phoder, of course.

Como instrumentos, tratou de:

- Promover a transferência de parte da poupança privada (então destinada ao financiamento de bens de consumo duráveis) para sustentar os novos investimentos;

- Sob a forma de joint-ventures, atrair investimentos estrangeiros;

- (Re) direcionar os recursos do PIS-PASEP para o BNDE e este fomentar a produção de bens de capital;

- Diminuir a demanda de petróleo, com o programa “Pró-Alcool”;

- Construiu os pólos petroquímicos de Camaçari (Bahia) e Triunfo (RGS), visando a desconcentração industrial (política e econômica de São Paulo);

- Expansão do endividamento externo do setor público (em parte) às custas das Estatais.

Ciranda, cirandinha...

Apesar da ligeira desaceleração, compatível com a tendência mundial, de 74, um pouco acima de 7%, o PIB foi significativamente mais elevado que às economias não-exportadoras de petróleo, tanto desenvolvidas como subdesenvolvidas.
Porém, quanto ao produto industrial, registrou-se queda de 16% em 73, para 4,5% em 75, apesar destes números serem razoalvemente maiores, se confrontados com outros países.
Os sucessivos choques externos (incluindo aí a quadruplicação do preço do petróleo) entre 74 e 80 ampliam o déficit comercial, um desequilíbrio cada vez mais irreversível no comércio exterior.

Além deste (desequilíbrio no balanço de pagamentos), durante o II PND, graças a uma aceleração inflacionaria (erroneamente a inflação foi diagnosticada como inflação de demanda), acabará por generalizar uma indexação da economia.
Simonsen (de quem admiro a força matemática nos quatro volumes de “Teoria Microeconômica” da FGV), malignamente cria o que foi denominado de “ciranda financeira”, ou seja, o governo passa a emitir títulos da dívida, de acordo com os recursos que entram na economia (uma enxurrada de dólares), assim, cresce enormemente a dívida mobiliária. A dívida externa passa a gerar a expansão da dívida interna (lembremos que ao diagnosticar a inflação como de demanda, não se poderia trocar dólares livremente por cruzeiros, contraproducente no caso de uma política monetária restritiva).

Dr. Delfim

Delfim, ao assumir as rédeas da economia em 79, tenta desmontar a engrenagem da “ciranda”, rompendo o circuito dívida externa-dívida mobiliária e desinflar a dívida pública interna, adotando as seguintes medidas:

- Diminuição das reservas cambiais;

- Maxidesvalorização cambial e retirada de incentivos fiscais às exportações;

- Diminuição da taxa de juros.

Entretanto, neste mesmo ano, o II Choque do Petróleo (quem se lembra dos postos fechados nos fins de semana? Por conta do racionamento...) e a subida das taxas de juros internacionais, deteriorando nossa conta corrente que aliado à redução das reservas, gera pressão muito forte sobre o balanço de pagamentos.

O governo joga a toalha e opta por estratégia recessiva, para ajustar o balanço de pagamentos, elevando a taxa de juros internos, aliada a captação de um maior volume de recursos externos.

Entre 81-83, ardíamos em crise, com taxas negativas de crescimento do PIB, do produto industrial, crescente desemprego, queda dos salários reais (ou seja, perdem para tx de inflação). A dívida externa não para de crescer, em função dos empréstimos externos captados pelas estatais e em fins de 82, captulamos integralmente ao FMI, que passa a nos emprestar, somente se adotarmos as medidas aconselhadas (ou impostas?), buscando a qualquer preço o superavit na balança comercial, com uma política monetária e creditícia rígida, reduções e cortes no setor público.

Dança da Garrafa

Para completar o quadro, na década de 80, vivenciávamos um hiato tecnológico, pois o Estado e o setor privado não exerciam atividades de pesquisa e desenvolvimento, com a industria brasileira apresentando baixos níveis de produtividade e custos elevados, assim, perdendo competividade com as economias capitalistas avançadas.
Há profundo desequilíbrio na estrutura produtiva, com “gargalos” nas indústrias produtoras de insumos e intermediários básicos (aço, petroquímicos, celulose, etc.), além de ociosidade em segmentos da indústria de bens de capital, principalmente tratores, maquinas de terraplanagem e construção naval.

Os serviços de infra-estrutura (energia, transportes e comunicações) também constituem-se em gargalos, por conta da redução de investimentos e a defasagem nas tarifas, ao terem como conseqüência a redução da competividade da indústria.
Apesar do “Tcham” ainda não estar nas paradas de sucesso, já descíamos na boquinha da garrafa...

Fim (?)

Fica inexoravelmente impossível, efetuar qualquer análise de nosso subdesenvolvimento, segmentando o país, dentro do contexto internacional. Assim, deve-se tomar como ponto de partida esta totalidade: a economia capitalista mundial. Desenvolvimento e subdesenvolvimento são pólos de um mesmo processo, a acumulação capitalista mundial, onde infelizmente, as relações não são equilibradas.
Collor é eleito com um discurso neoliberal, assim como este (neoliberalismo) campeia em todo o mundo, novos tempos, onde se torna imperativo à abertura comercial e financeira ao capital internacional (para este é claro). O sistema liberal, por trás de enganosa “reciprocidade” ou nas palavras de Raul Prebisch, cujo modelo de vantagens comparativas de Ricardo, são na verdade desvantagens reiterativas...

(continua...)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Milagre - Última parte de Quase 45 (anos de industrialização)


O final do governo JK foi notoriamente marcado por desequilíbrio no balanço de pagamentos e por fortes pressões inflacionárias, assim com o golpe militar de 64, o governo Castelo Branco lança o PAEG (Plano de Ação Econômica do Governo), um plano gradualista e que não seguia os moldes rígidos do FMI, evitando assim, aumentar a recessão(como convém ao grande capital), contrariando este e adotando a indexação financeira da economia. Porém, fez forte controle de preços, cortes nos gastos públicos e forte arrocho salarial (estas medidas sim, poderiam ser esperadas por parte de Roberto Campos, então ministro, pois o diagnostico sobre inflação era falaciosamente excesso de demanda).
Não há somente erros, pois os militares procederam à profunda modernização da administração pública, processando uma reorganização do sistema financeiro, com o objetivo de fomentar (em longo prazo) a formação de poupança privada.
Nesta fase, criaram-se o BACEN (a SUMOC foi extinta), o CMN, o FGTS, alteração do sistema tributário (criados ICM, IPI, ISS) e o pós-quebrado BNH, destinado a estimular o setor de construção civil.
O panorama do capitalismo brasileiro de então, em curto prazo, não melhorou, muito pelo contrário, acentuou-se a depressão, porém de forma deliberada, ao serem freados os mecanismos habituais de financiamento, relacionados com a política cambial, de crédito, de salários e do déficit público.
Maria da Conceição Tavares, no entanto, acredita que as medidas adotadas podem ser consideradas “funcionais”, pois o conjunto das reformas (a priori tributária e do mercado de capitais) preparou as bases para uma recuperação forçada e acelerada da economia, que só viria no período seguinte, assim o período de 62-67 é de “saneamento” e de “semeadura” do terreno, para uma retomada da acumulação de capital.
A recuperação da economia começou em meados de 67, sob a influência da política fiscal e monetária mais folgada do segundo governo militar (Costa e Silva), se “folgada” economicamente, profundamente “linha dura” politicamente e repressiva, lembremos que estávamos no tempo de “Pra frente Brasil” e “...ame-o ou deixe-o”.
No primeiro momento (67-70) o PIB cresce à média anual de 10%, liderando a expansão o setor de bens de consumo duráveis – notadamente o automobilístico, estimulado também pelo aumento da concentração de renda e o boom da construção, civil, idem. Dada a grande capacidade ociosa anterior, a industria de bens de capital ficou restringida a reposição e modernização.
No período de 70-74, esgotada a capacidade ociosa, implementa-se uma política de desenvolvimento industrial, porém não dando atenção a questões importantes e urgentes, como a da distribuição de renda (cada vez mais concentrada) e a dos baixos padrões de consumo básico da população menos favorecida.
Estabelecendo um paralelo com o ciclo expansivo anterior, o Plano de Metas de JK, temos:
No PM houve um pacote de investimentos, alterando a estrutura industrial, a citada “onda” quase schumpeteriana, em favor do setor de bens de produção e de bens duráveis, enquanto o Milagre foi calcado com base na estrutura já existente, exceção da industria petroquímica e de alguns bens do setor elétrico.
No período JK o setor dominante foi o de bens de produção, enquanto que o setor de bens de consumo duráveis teve papel subordinado (apesar de também importante), sendo o Milagre o inverso, o eixo de acumulação se dá sobre os bens de consumo duráveis.
Em relação à distribuição de renda, na fase 56-62, o crescimento rápido foi compatível com o aumento da taxa dos salários reais de base, ao inverso, no período do Milagre (68-73), justamente pela dominância dos bens de consumo duráveis, impôs uma diferenciação dos salários.
Com relação ao capital internacional, no Plano de Metas, a entrada foi prioritariamente via investimentos diretos, enquanto na fase do Milagre, houve entrada maciça de empréstimos em moeda.
Em ambos os períodos, o gasto público funciona como acelerador da economia, porém, no primeiro concentrado na formação de infraestrutura e o segundo destinado ao setor automobilístico, rodovias, etc.
Temos que ressaltar as contradições deste período de 68-73, quando houve um desequilíbrio caracterizado pelo atraso do crescimento de bens de produção (máquinas, equipamentos e bens intermediários) com relação ao setor de bens de consumo duráveis, não duráveis e da construção civil.
Nos fins de 70, após a ressaca do tri, o governo se deu conta deste desequilíbrio e tentou eliminá-lo, mediante incentivos aos investimentos privados e públicos diretos em bens de capital e insumos básicos, porém, isso feito a partir da premissa de continuidade do crescimento acelerado do setor de bens de consumo duráveis, idem construção civil.
Mas era condição necessária para que não fosse perdido o fôlego, tanto a existência de capacidade ociosa, como a expansão das margens de endividamento das famílias, todavia, a recuperação da indústria de bens de produção acontece depois do crescimento do setor de duráveis, gerando uma diferença dos ritmos de acumulação.
Por fim, como a base da pirâmide salarial torna-se cada vez maior, o crescimento da indústria de duráveis é curto, pois esta base não tem acesso aos bens produzidos por ela, ou seja, a indústria de duráveis não consegue crescer fechada nela mesma.
O sonho havia acabado, ainda assim, o governo militar tentaria recuperar as taxas de crescimento, de forma infrutífera e muitas vezes por pura demagogia, talvez apenas objetivando a manutenção do poder. Estamos em 1974 e Pelé se recusa a jogar mais uma Copa...

Esta mini série em 3 capítulos, só foi possível graças aos trabalhos dos mestres: Wilson Cano (Soberania e Política Econômica na América Latina), João Cardoso de Mello (Capitalismo Tardio), Carlos Lessa (15 anos de Política Econômica), José Serra (Ciclos e Mudanças Estruturais na Economia Brasileira do Pós-Guerra) e Maria da Conceição Tavares (Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro).