sábado, 11 de fevereiro de 2012

Notas sobre Karl Marx (continuação)

Notas sobre Karl Marx
II - (Primeiro manuscrito – Salário do trabalho)

O próprio título: “Manuscritos Econômicos Filosóficos” índica que são textos com um caráter tanto econômico quanto filosófico, assim, alguns trechos serão segmentados para análise, começando com a primeira frase do primeiro manuscrito, sobre “Salário do trabalho”, onde Marx escreve que uma “luta árdua entre o capitalista e o trabalhador” é que determina o salário, com uma compressão do salário deste último, quando “o proprietário e o capitalista podem completar os seus ganhos com os lucros da indústria”.

Este início faz-me parecer que a época em Marx escreveu (1844), o capitalismo era bem diverso do capitalismo de nossos dias, tanto na questão do preço do salário, quando o que determina o mesmo é o “quanto” o consumidor está disposto a pagar (sendo bem óbvio e diretamente proporcional no que tange a serviços) – exceção nos monopólios (que também eram poucos ou nenhum na época de Marx) com demanda inelástica. Gostaria de fugir ao máximo do economês, mas aceitar ou refutar determinados conceitos econômicos marxistas, ou não, implicará em usá-los e tentar “traduzi-los”. A demanda é inelástica quando um aumento do preço não gera diminuição significativa na demanda e sendo monopólio não há substituição perfeita, tampouco próxima do bem. Marx mistura o capitalista com o proprietário, talvez o preço de ter escrito ainda jovem (ou de sua época), quando os bancos não eram o que são hoje, tendo a maioria dos proprietários como reféns dos juros via adiantamentos e desconto de títulos, assim, nem sempre o proprietário realizará seu lucro, dado o risco do negócio (talvez a grande crítica liberal), contrario ao capitalista, que sempre receberá na frente (seja via prêmio de risco, hedge, etc.). É claro que existem proprietários/capitalistas, o dono do banco, que “vende” dinheiro, os donos da ANBEV, da Vale, empresários do porte de Eike Batista, mas raramente não terão poder de monopólio, mas também existem os proprietários não capitalistas, que dependem de capital de terceiros para gerirem seus negócios. Na época de Marx, formou-se uma casta via acumulação de capital, a burguesia, que buscou ao máximo a multiplicação deste mesmo capital, sendo então uma só: proprietária e capitalista. Somente depois, aqueles que sonham em serem proprietários, não fazendo parte da “luta árdua” de Marx, mas sim sonhando em emular, segundo Thorstein Veblen: “As classes mais baixas não estão querendo brigar com as mais altas (...) não procuram destruir seus dominadores; eles procuram emulá-los (...) seu objetivo não é se livrar de uma classe superior, mas sim ascender até ela.”

Schumpeter e sua figura do empreendedor são cruciais para entender este ponto, para além de Marx, apesar de que Schumpeter (nascido no ano que Marx morreu) parece ter buscado inspiração em vários trechos do “Manifesto Comunista”, como veremos à frente. O empreendedor é aquele que sem recursos, irá até o capitalista e pagará o prêmio de risco pelo capital necessário para seu negócio, que sendo sucesso, realimenta com mais lucro (e capital) este mesmo sistema. Vejamos que aqui este lucro não se dá por conta de mais-valia, mas por conta de maximização do mesmo, dada a “novidade” do empreendedor e sua capacidade de capturar a demanda do consumidor.
Mas aqui fico numa encruzilhada. Não será o consumidor, também o trabalhador? Quando o consumidor está sendo explorado, não estará também sendo explorado o trabalhador de forma indireta, já que a exploração se dá não pela produção em si, mas pela venda, com maximização do lucro? Talvez o grito final do Manifesto deve-se ser: Consumidores de todos os países, uni-vos!

Porém, algumas coisas não mudam e “o trabalhador transformou-se numa mercadoria e terá muita sorte se puder encontrar um comprador”, não difere dos nossos dias, com poucas exceções, dado algumas especializações e formações.
Marx continua com várias citações da obra de Smith (A Riqueza das Nações), nas quais não o contesta explicitamente do ponto de vista econômico, mas sim do filosófico.
A idéia de preço corrente e preço natural acabou evoluindo para a busca de lucro máximo via igualar o preço corrente ao custo marginal, em situação de livre concorrência, que sendo utópica nos leva a situação de lucro máximo em monopólio, ou seja: Rmg = Cmg. Marx referenda Smith, com a observação de que se o capitalista perde, o trabalhador perde, porém se o capitalista ganha, o trabalhador não tem seu “plus” por conta desse ganho adicional. Nada mais verdadeiro, porém Marx não aborda a questão do risco até então.

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(continua...)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Hino ao Sono

No blog do camarada Halem, achei esta postagem (clica no link) sobre o poeta João Paulo Paes, que apesar de escrever "em Quem, eu?: um poeta como outro qualquer", de forma alguma, digo. Fiquei sim, embasbacado e navegando atrás de outros poemas, procurando livros, deparei com esse, alimentando minha noite insone.

HINO AO SONO

sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Notas sobre Karl Marx

Notas sobre Karl Marx

I - Prefácio

Após a conclusão do curso de economia, descobre-se que aquele que quiser conhecer um pouco sobre Marx deve caminhar por conta própria, não que seja má vontade do professorado, pois também não existe nenhum aprofundamento em Hayek, Mises ou Friedman, mas por absoluta falta de tempo. O curso regular deve caminhar pelo “caminho comum”, cabendo ao aluno fazer suas escolhas. Calma, apressado leitor, não fiz uma escolha marxista, tampouco austríaca (a escola mais liberal da economia), mas sim, escolhi conhecer o que me for possível de economia, ambos os lados, todas as escolas, todos os “modelos”, pois o que já é me dado compreender, temos coisas boas e ruins em ambos (todos).
Voltando a Marx, tentarei discutir algo do mesmo, após leitura dos “Manuscritos Econômicos Filosóficos” e do “Manifesto Comunista”, além de citações de ”O Capital” feitas por Kalecki e Rosa Luxemburgo, autores que sendo “tradutores” do pensamento marxista, sem seres dogmáticos, em muito ajudam, numa busca imparcial de conhecimento e posicionamento. O primeiro com seu viés matemático e Rosa profundamente humanista.
Espero ao fim destas primeiras notas, estar pronto para mergulhar diretamente no “O Capital”, especialmente o Livro I, publicado ainda quando Marx estava vivo.
“Neste mundo, só possuímos aquilo que podemos vender”, esta é uma frase, a meu ver, ícone não só da peça “A morte do caixeiro-viajante”, como de uma análise de Marx e do capitalismo e longe de pensar em Marx ou o comunismo como redenção, pois nestas primeiras horas de análise, onde me valem as notícias de jornais (mesmo que parciais) tanto o quanto os livros científicos, a falência tanto da ex-URSS, como do comunismo fake chinês (alguém pode me definir aquilo?) e da oprimida (tanto por dentro como por fora) Cuba, o dito de que “o capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o comunismo é o oposto”, não me parece apenas piada de mau gosto, mas um humor negro, de penosa realidade, pois o comunismo que se apresentou ao mundo até agora, me parece divergir do comunismo sonhado por Marx e é isso que pretendo auferir.
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(Continua...)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Thorstein Veblen, Bucetinhas e A Revolução Marxista


As instituições não são novidade, vide que os economistas clássicos já pensavam claramente em instituições; a escola histórica alemã foi explicitamente institucionalista; e nos Estados Unidos, no começo do Século XX, houve uma escola com esse nome, cujo principal representante foi Thorstein Veblen (este cara aí da foto, parecido com o Tom Selleck-Magnum).

Principal figura, (figura não! Figuraça!) desta Escola, Thorstein Bunde (que de bundão não tinha nada) Veblen foi um filósofo, sociólogo e economista altamente controvertido.

Nasceu em Wisconsin de pais de origem norueguesa. Estudou nas universidades John Hopkins, Cornell e Yale, onde obteve o doutorado em 1884. Veblen trabalhou nas universidades de Chicago (de onde foi expulso por manter relações sexuais com alunas), Stanford (de onde lhe obrigaram a ir embora por sua atitude crítica para com os homens de negócio) e Missouri (desta não foi posto para correr?), sendo que, em nenhum caso, pôde superar o nível de professor auxiliar (porém, com várias bucetinhas no currículo). Apesar de crítico do "stablishment", foi escolhido, por seus colegas de profissão, para a presidência da American Economic Association, provavelmente porque todos também olhavam, para além das curvas de oferta e demanda, olhavam para as curvas (nem tanto, pois sabemos o quanto as americanas pré-silicone são “retas”) das alunas...

Com Veblen, o estudo das instituições ganhou este espaço, por conta de sua importância dada, visto que os homens perceberam com mais clareza que, através delas, podem alcançar resultados sociais e liberdade, o bem-estar e a justiça.

Chang em seu estimulante “Chutando a Escada”, destaca quais seriam as ditas “boas” instituições que levariam (e levaram) ao desenvolvimento, os países hoje assim classificados.

A Escola Institucionalista surge como forma de compreender a interação humana, uma crítica implícita à Escola Neoclássica (e ao laissez-faire). As instituições fornecem sustentação à sociedade, são sistemas de regras estabelecidas e que organizam as interações sociais, mesmo quando as mesmas instituições, restringem (de alguma forma) a interação humana, seja por restrições formais (regras, leis, constituições) ou restrições informais (normas de comportamento, convenções e códigos de conduta auto-impostos).

O Velho Institucionalismo Americano (Old Institutional Economics – OIE), do qual as figuras centrais foram (o citado) Thornstein Veblen e (também) John Commons, destacava a importância central das instituições e da mudança institucional rejeitando o enfoque no indivíduo e dando atenção primordial ao coletivo e na sua preponderância sobre o agente individual, destarte, os próprios mercados deveriam ser vistos como instituições.

Se os primeiros economistas não foram tão bem sucedidos em explicar o que mantém a sociedade unida diante dos interesses divergentes, poderíamos então afirmar que a visão marxista estaria certa, face aos interesses (segundo ele) opostos entre capitalistas e proletariado? Então, nesta mesma linha, por que não houve, então, a revolução também preconizada por Marx, diante da falência (novamente, segundo Marx) inexorável do sistema?

Veblen poderia ser a resposta:

“ As classes mais baixas não estão querendo brigar com as mais altas...não procuram destruir seus dominadores; eles procuram emulá-los(...)seu objetivo não é se livrar de uma classe superior, mas sim ascender até ela...”

Resumidamente, as instituições são importantes para o desenvolvimento econômico porque o Estado, enquanto agente fundamental da ação coletiva é uma instituição (primeira-uma espécie de raiz das demais) capaz de promover uma estratégia de desenvolvimento e ao mesmo tempo ser o “juiz” neste ringue formado entre as classes sociais. Assim, o desenvolvimento econômico será quase invariavelmente fruto de uma estratégia nacional.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Vai Morar com o Diabo



Escutei ontem no rádio do carro, uma gravação que me chamou a atenção, procurei na rede e achei esta aí ao lado, no link, da música título do post, onde Riachão canta com Caetano (CD de 2001). No Youtube, pode-se achar outras versões, tanto a que escolhi, com desenho animado para ilustrar, versão da Cássia Eller, como uma mui bela, do Grande Riacho com Beth Carvalho. Interessante nessa, são as legendas em espanhol, mostrando como alguns gringos apreciam uma boa dose de cultura.
Apesar de reconhecido pela crítica e por grandes artistas da MPB, Riachão nunca conseguiu se inserir no mercado, afinal, quem não “vende” ou é vendido – está fora!
Os shows sempre raros e também poucos os registros. Em 1972, Caetano e Gil voltam do exílio em Londres. Em Salvador, pretendem escolher a música de um compositor baiano para marcar este retorno e a escolhida foi “Cada Macaco no seu Galho”, de Riachão, que acaba estourando nas rádios.
Nos anos de chumbo, Riachão teve um samba proibido pela censura. A música se chamava “Barriga Vazia” e a letra dizia: “Eu, de fome, vou morrer primeiro / você, de barriga, também vai morrer um dia”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Rosa Luxemburgo



O cinema pode ser realmente a sétima arte. Porém por que filmes como o “pedacinho” acima não passam no Brasil? Escrevo pedacinho, porque estes poucos minutos valem por 1000 “Missões Impossíveis”. O discurso de Rosa tem mais ação do que o agente Ethan Hunt pulando de um prédio em chamas.
Durante muito tempo, o diretor alemão Rainer Werner Fassbinder planejou dirigir um filme sobre a vida de Rosa Luxemburgo. Em 1982, quando ele morreu, Margarethe von Trotta completou, com Die Geduld der Rosa Luxemburg sendo lançado em 1986. Passou por aqui? Está nas locadoras? Ou como gosto de escrever: A quem interessa tanta alienação? Como irá ver abaixo, talvez a "rede" ainda nos salve...
Tomei conhecimento do trabalho de Rosa, somente por citação en passant da mesma na faculdade, como normalmente ocorre com autores que se aprofundam nas obras de Marx. Coube ao meu instinto curioso, procurar e achar o excelente “A Acumulação do Capital”, que defende a tese de que a necessidade de expansão permanente do capitalismo é a causa básica do imperialismo – a submissão econômica dos países de economia atrasada aos altamente industrializados. Rosa faz uma exposição histórica do problema de reprodução e acumulação do capital, tentando inclusive resolver algumas das colocações que não foram aprofundadas por Marx (questões do Livro II de O Capital – parece que aquilo que foi publicado após sua morte ficou um tanto incompleto, sem o parecer ou conclusão final do próprio Marx).
Mas o que (também) admiro nesta mulher, é sua crítica ao dogmatismo, particularmente nos primórdios da Revolução Russa, quando disse, referindo-se à ditadura estabelecida pelos bolcheviques (apesar do seu apoio a mesma), em 1917: “Liberdade apenas para os que apóiam o governo, apenas para os membros do partido, não importando quantos sejam, não é absolutamente liberdade. Liberdade é sempre a exclusivamente a liberdade de quem diverge do nosso modo de pensar”.
Rosa Luxemburgo defendeu a liberdade entre 1870 e 1919, quando foi fuzilada por oficiais monarquistas alemães.
Voltando ao filme, dá para "baixar" o mesmo, clique no link e faça o passo à passo:
http://www.filesonic.com/file/1576286164/rosaluxemburgo.avi

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012 - Ruídos ou Sinais

Foto: Globo ONLINE, praia de Copacabana, primeiros minutos de 2012
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Dentre as várias artes, aprendidas pelos economistas, uma de muita importância é a diferenciação entre ruídos e sinais, ou seja, entre o há de importante nas notícias e pode virar fogo e o que normalmente não passa de fumaça, até mesmo proposital.

As notícias continuam: A Itália realizou pregão de títulos, pelo curtíssimo prazo de vencimento de 06 meses, ou seja, apenas para apagar o incêndio da sua enorme dívida interna, plantada pelo Sr. Berlusconni; o dólar caiu ontem, mas fechou o mês com expressivo índice de 3,32% de alta, ou seja, bom para quem exporta e ruim para quem importa, já que a moeda nacional está mais fraca perante o mesmo do que há um mês atrás – no ano houve uma alta acumulada de 12,32% o que comparado com o rendimento acumulado da poupança no mesmo período (7,50%), dá um passeio de saltar os olhos; O governo espanhol anunciou déficit de 8% e que seguirá a cartilha ortodoxa (leia-se neoliberal) de ajustes, ou seja, desemprego colhido via pacote de austeridade; Nos EUA, a venda de imóveis voltou a crescer (7%) e a fábrica de veículos Ford cresceu 15% tendo como referência 2007, ou seja, está crescendo pós-crise o mercado interno americano, enquanto o europeu (pelo menos Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal) derretem; A China sinalizou que vai flexibilizar sua moeda – Yuan – flexibilizar neste caso é não se manter tão desvalorizado perante o dólar, assim, ganham importadores em lugar dos exportadores; O Indicador Serasa de Inadimplência aumentou 9,8%, em novembro na comparação com outubro, registrando a segunda maior elevação do ano. A taxa mais alta foi registrada na passagem de fevereiro para março quando o indicador marcou 10,8%. Comparada a novembro do ano passado, a inadimplência cresceu 32,5% e, no acumulado do ano, 18,6%.

O ano novo, inexorável chegou, se será bom ou ruim, não sei, pois ainda estou tentando decifrar, se são ruídos ou sinais.