sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Mendigo

Ontem à noite, vi caminhando pela Avenida Rio Branco, a principal rua do centro da cidade do Rio de Janeiro, uma das figuras da qual falei em outra postagem.
Não via a figura há muito tempo, somente tendo escutado algo a seu respeito. Ele era da “turma dos mais velhos”, mas apesar do andar arrastado, pude reconhecê-lo vindo em minha direção.
Propositalmente fui de encontro e a cada passo que eu dava, me aproximava, percebendo seu olhar perdido, seus pés sujos, calçando velhos chinelos, sua roupa chinfrim, um tosco chapéu de palha e uma grande sacola plástica às costas, levando sabe-se lá o quê...
Cruzei por ele lentamente, encarei-o e ele a mim, mas não com ar desafiador, mas sim com ar manso. Não sei se não me reconheceu ou se teve vergonha de falar, por quem já havia sido e pelo que era hoje: Mendigo.
Eu também não falei. Perplexo com o destino, mudo fiquei e só agora, aqui na madrugada, com a maquininha, tento dividir o que não sei...
Percebo que nunca soube seu nome, só seu apelido...
Nunca foi meu amigo, só um conhecido de bar, da “turma dos mais velhos”...
Assim, eu tento aplacar minha consciência.
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Torço para os meninos acordarem logo e que digam:
- Vamos jogar xadrez, papai?
A tempestade se aproxima e eu estou de volta ao ventre do bicho...
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Obs.: Aos amigos blogueiros, prometo entrar em todos vocês (no bom sentido) no fim de semana, com fartos comentários. Como disse acima, estou de volta ao "ventre do bicho", portanto com muito trabalho...

6 comentários:

Jean Scharlau disse...

Figuraças! Nos deixam pedindo mais histórias. Teremos?

PS sobre a Obs: nem te conheço.

Jacinta Dantas disse...

Pelo jeito a pessoa tem um espaço marcante na sua vida e, ir ao encontro é a melhor atitude. É legal resgatar o que da gente tem na pessoa que nos chama a atenção. Mesmo que seja lembranças da turma de bar, dos mais velhos.
Um abraço

Jens disse...

É o Capilé, né?
Dolorido, Renato, dolorido...
Um abraço.

loba disse...

Renato, deixa eu começar dizendo: esta talvez seja a crônica do Renato Couto que mais gostei. or tudo, mas especialmente pla grande fresta aberta na alma deste economista.
Qto ao tema em si: vc me fez lembrar uma figura folclórica da minha Beagá. Uma mendiga que viveu anos acompanhando os estudantes e na sua insanidade tendo com eles verdadeiros embates discrusivos. Ninguém nunca soube quem era, como fora parar ali. Mas todos a tinham como fazendo parte da vida de cada um. Interessante isso, né?
Aqui a tempestade já se foi. Amanhã promete um verão de mais de trinta. E eu vou sonhar com a Sibéria! rs...
Beijo!

Renato Couto disse...

Loba: Obrigado por este "baita" elogio...

Jens: Não era o Capilé, acho que este não iria me dar o impacto que deu ao ver "The Boy" naquele estado...Fico me perguntando: Onde foi que ele tomou o caminho errado?

Jacinta e Jean: Toda essa "turma", da minha infância e juventude, foram estremamente marcantes, novas histórias vão brotando aos poucos, sendo resgatadas lá do fundo da memória...

Dora disse...

Renato. Eu achei de uma tristeza enorme esse re-encontro com uma figura do passado e ver que a vida não sorriu prá ela. Que história se passou com esse "conhecido de bar", que hoje, quase trôpego, caminha...e é reconhecido como "mendigo"? O que se esconde nos tantos descaminhos que ele trilhou? Triste. Eu achei...
Mas, a forma de você contar embelezou tudo. É um texto bonito!
Está no ventre da baleia? Eu também estou! rs
Beijos, companheiro.
Dora