sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Figuras da Rua Barão de Mesquita

"...Neste passeio sentimental lembrei de algumas figuras da geração anterior à minha, que pontificavam quando eu ainda não era um delinqüente juvenil, apenas um gurizinho bonitinho e fofinho que jogava bola, pescava nos arroios, assassinava passarinhos a fundaços e já gostava de apedrejar as casas da vizinhança. Na época, eles eram os muito-loucos..."

Naquele prazer de ir de blog em blog, deparei com este: TOCA DO JENS (http://tocadojens.zip.net/ em 21/07/08), de fino trato e escrita, onde ele retratou algumas personas de sua juventude. Inevitável, após ler o post (parte transcrita acima, entre aspas), não lembrar também de algumas figuras da minha...

BRECHINHA: Houve uma batida de carros bem na frente do bar, nada de mais, um ligeiro encostar de pára-choques, mas deu aquele bafafá, formando aquela rodinha, doida pra ver uma briga. Enquanto os motoristas discutiam, Brechinha sorrateiramente entrou em um dos carros, ligou a ignição e partiu em disparada, cantando pneus. O dono do carro ficou louco, começou a gritar, desesperado, assim a pseudo-briga acabou imediatamente. Logo depois ele aparece, galhofeiro, contando para a rapaziada que havia abandonado o carro a dois quarteirões dali. Ele desmontou sua bicicleta e montou um monociclo, tipo aqueles de palhaço de circo, com o qual ficava indo e vindo, se equilibrando numa roda só. Aos dezoito, servindo o exército, fez parte dos motoqueiros da PE, fazendo acrobacias na moto, ficando em pé, plantando bananeira e outras loucuras. Em torno dos vinte e cinco, voltando de uma festa, muito louco, com sua Yamaha RD350, famosa no mundo todo como a moto assassina, bateu em cheio num carro que havia avançado o sinal. Fui ao seu enterro, depois pedimos ao dono do bar que a rapaziada freqüentava, que mudasse o nome para "Brechinha’s Bar", pedido atendido e assim ficou até o Japonês, o dono, também morrer e sua esposa vender...

MACARRÃO: Morreu ao bater com a cabeça no mictório (aquele lugar onde os homens fazem xixi em pé). Chegava no bar já se mordendo, pedia um cachorro magro (cachaça com limão, sem açúcar) e falava coisa com coisa. Volta e meia cantarolava o mesmo blues: " O império do visgo, tchum,tchum,tchum, passou por aqui, tchum,tchum,tchum". De sua autoria, claro, mas a letra não saía disso. Eu nunca soube o que é o visgo... O conheci "normal", caixa do extinto banco Nacional. Quando eu tinha quinze, fui ao seu casamento, ele deveria estar com uns vinte e poucos. No enterro do Brechinha, ele ainda não estava pirado, acho que o Macarrão foi levado pelo pó...

FRANK: A família havia vindo do Acre, ele baixinho, cara de índio, totalmente versado na arte de apertar um bagulho, seus dedos pareciam automáticos. A turma "dos mais velhos", da qual eu, moleque, não fazia parte, ia para sua casa escutar George Harrisson cantar My Sweet Lord e Dylan soprar seu Hurricane. Ainda jovem voltou para o Acre, para tratamento, ninguém mais soube dele...

ALCATRA: Motoqueiro, tinha uma CB400, sempre de jaqueta de couro, era um pequeno comerciante local, revendendo pó e fumo na sua casa. Filho de um coronel da reserva, foi solto pelo menos duas vezes, por conta do pai. Maluco ao extremo, após entrar com a moto pela janela de uma boate (sim, ele conseguiu) foi expulso dos Hell’s Angel’s (sim, ele conseguiu também), que passaram a considera-lo elemento de alto risco, o famoso chave de cadeia. Pelo que sei, ainda continua micro-empresário...

CAPILÉ: Lembrava o Visconde de Sabugosa, bêbado a maioria do tempo, atravessa a rua, para o bar do outro lado, sem olhar, sem pensar e nunca foi atropelado. Certa vez, Fred, um amigo que havia alugado um apartamento nas imediações, pediu ao Capilé que este pintasse o sala e quarto. Fred ao chegar do trabalho, encontra a porta do apartamento escancarada, achou que havia sido roubado, quando entra, vê na sala, Capilé dormindo pelado e abraçado a uma mendiga que dormia todas as noites em baixo da marquise...Faz pouco tempo, o vi, relativamente sóbrio, os pés inchados, mas ainda bebendo...

THE BOY: Bem mais velho que todos nós, tinha a fama de faixa-preta de caratê, bom de porrada, embora eu nunca o tenha visto brigar. Às vezes penso: Será que hoje, é essa fama que tenho, com a molecada aqui da rua? Boa pinta, vivia nas rodas de samba... Há muito tempo atrás, o vi no Jornal Nacional, cobrindo o rosto, outro dia soube que tentava trocar um cheque nas imediações...

AROLDO: Tenho uma terna lembrança de Aroldo, baixinho, folgado, mas de um coração gigante. Foi quem me levou a primeira vez numa boate, daquelas em que as moças dançam quase como vieram ao mundo e ficam passeando entre os clientes, pedindo que lhe paguem uma bebida. Eu, duro igual uma porta, ficava na aba dele, na base do gin-tônica e olhando maravilhado as "meninas". Quando íamos jogar bola, de manhã cedinho, enquanto a maioria ainda estava com gosto de pão com manteiga na boca, Aroldo já tomava um Sprite com 51, no botequim, nosso ponto de encontro. Hoje está irremediavelmente perdido, não bebe mais, não conversa mais, mal sai de casa...

7 comentários:

loba disse...

Tão bom relembrar as pessoas que fizeram parte da vida da gente né? As pessoas que ficam na memória são aquelas que, de uma forma ou outra, nos marcaram.
Interessante a sua relação com o blues. Ela aparece em vários dos seus posts e agora tb nas pessoas com quem vc conviveu. Embora meninas tivessem amigos um tanto diferentes dos seus e dos que o Jens nos apresentou, tb eu tive o meu grupo - um grupo unido pela musica e pelas transgressões tão comuns aos jovens da minha época (putz, faz tanto tempo!!! rs...)
Amei te ler. Conhecer estes personagens é te conhecer um pouco mais!
Beijocas

Tânia disse...

lembro deste post do Jens.

Renato, estes nossos heróis e anti-heróis rendem lembranças assim como estas suas, daqueles que aquecem carinhosamente o coração, rende aquelas risadas espontânea...

Só lamento que ninguém me levou à nenhuma boite...rssssssss

Beijos de sábado de sol (mas com protetor solar viu?)

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Mais de um leu e um deles fui eu. Gostei muito, xará. Também acabo de publicar algo de belo. Um post feito a várias mãos, ou seja, vários colegas da Blogosfera contribuíram para esta postagem. Venha apreciá-lo.
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Um beijo,
Renata

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Renato, boa tarde!
Esses perfis tão bem traçados me remetem a um tempo, um tempo que pensei ter perdido...Obrigada por nos tê-los relembrado!Bjsss

Dora disse...

Nossa! Cada "tipo" passou pela sua infância e adolescência! E o curioso é que têm muito em comum: a bebida, a malangragem, o gosto pelas "ervas"...rr
O futuro deles é que divergiu um pouco...um pouquinho só, pelo menos...
Passadas lembranças. Boas lembranças.
Abraços, Renato!
Dora

Jens disse...

Oi Renato.
Cara, que delícia de post. Fico feliz de ter provocado estas lembranças.
Gostei do blog. Acho que isto é o começo de uma grande amizade.
Um abraço.

JADY*ALVES disse...

Renato, logo cedinho recebendo uma visita assim tão doce e gentil... É tudo de bom né não?
Gostoso recordar então dos amigos que se foram, ou que ainda estão, mas o que importa é que conhecendo seus amigos, senti com que carinho você os tatuou em sua memória.Vou te conhecendo aos poucos...Receba meu beijo!Obrigada...