segunda-feira, 11 de agosto de 2008

China ou Darcy Ribeiro Contra as Muralhas da Ignorância

A China vem se abrindo econômica e politicamente, isso todo mundo sabe, cantado aos quatro ventos, atualmente os líderes chineses não podem mais se perpetuar no poder. Há na constituição um artigo que impede que os líderes sejam reeleitos por mais de dois mandatos para o mesmo posto.
As relações de trabalho – e a economia como um todo– abandonaram os dogmas socialistas e hoje a economia chinesa se aproxima muito mais de uma economia capitalista do que de uma economia planificada.
A grande preocupação da população é econômica e não política. O nível de vida está aumentando, mas como toda economia capitalista do mundo real, haverão pessoas que serão excluídas desse processo. O medo do desemprego passou a preocupar muito mais do que a liberdade de expressão, mesmo com certos assuntos ainda sendo doloridos, por exemplo temos o movimento separatista do Tibete.
Acusam a China de controlar a imprensa. De fato, existe um controle claro do governo, vários repórteres estão provando isso na pele, nesta cobertura olímpica, porém, nos países ocidentais, esse controle existe, mas não explicitamente, pois servem aos interesses das classes dominantes, havendo assim um controle dissimulado. A verdade é que a China ainda não está preparada para a democracia. A China nunca teve tradição democrática. As coisas sempre foram impostas de cima para baixo e o povo se acostumou a isso. Qualquer coisa imposta pelo presidente Mao, era irrefutavelmente acatada por toda a população, pois estava acostumada a isso, assim como estava acostumada as ordens do Imperador, elemento de coesão há mais de dois mil anos, em um país que sempre foi profundamente hierarquizado.
O processo de democratização, será obrigatoriamente lento. As mudanças gradativas foram a fórmula de sucesso da China. Por que mudar isso agora? Só para agradar os ocidentais? Deng Xiaoping, por exemplo, dizia que as instituições chinesas precisam ser reformadas e previu que a população chinesa estaria preparada para eleições presidenciais em 2049. É um prazo bem longo para os nossos padrões, mas na China (assim como no Japão) não existe este culto ao imediatismo, não há pressa para o sucesso, culturalmente sabe-se que naturalmente, o mais capacitado prospera. Sobre o crescimento na (da) indústria privada oriental (Japão, Coréia e China), na década de oitenta, William Ouchi, escreveu um excelente livro chamado Teoria Z.
Os chineses têm uma grande curiosidade sobre o mundo ocidental, mas a mentalidade de hoje já não é a mesma de vinte anos atrás, onde muitos jovens eram partidários (escondidos) da democracia e acreditavam que os Estados Unidos eram uma espécie de paraíso onde o nível de vida era mais alto e havia liberdade de expressão. Isso mudou porque a mentalidade dos jovens também mudou. A maioria dos chineses não enxergam mais os Estados Unidos como o modelo ideal. Os americanos, este sim, atualmente vêem a China como ameaça à sua hegemonia econômica(pois a China deixou de ser puramente mercado e passou a ser concorrente) e usam a bandeira da democracia para proteger seu mercado, aliás, o que sempre foi feito, vide a política extremamente protecionista praticada pelos yankees, em relação a tudo e a todos.
A China é o exemplo do país subdesenvolvido que caminhou para frente. Os chineses não se conformaram, acreditaram e acreditam continuamente que podem melhorar. Qualquer universidade da China, num sábado à noite, está repleta de estudantes nas salas de aula estudando.
O caminho, já se sabe, falta a vontade de alguns para trilha-lo. Faz uns vinte anos, o professor Darcy Ribeiro, deu a senda...

6 comentários:

Tânia disse...

Renato, brilhante sua colocação sobre a China de hoje.
A globalização está aí, mas ainda percebo que muitos países tendem a fechar esta cortina, talvez por medo de ser engolido por este Dragão, talvez por ignorância de saber que sim a evolução vem, mas é preciso lutar por ela.

Beijo

loba disse...

Ah Renato, que bom ler este texto! Além de informativo ele traz a sua visão e seu respeito (o mais interessante pra mim) em relação a uma cultura que pouco conhecemos. tenho lido alguns artigos e textos em blogs onde a crítica é feita sob o olhar ocidental. acaba sendo uma critica injusta, pq para se entender uma cultura é preciso, no mínimo, respeitá-la.
Não posso dizer que concordo com a política ditatorial, mas entendo que há certa sabedoria neste povo que vai assimilando aos poucos valores de outras culturas. choque de gestão (como adora dizer o governador das gerais) nem sempre é o melhor caminho!
beijo!

Dora disse...

Achei seu texto bem coerente e bem reflexivo. Pensar a China, com nosso raciocínio que já carrega o "hábito mental" ocidental, traz distorções de julgamento.
Você disse bem quanto ao "jeito de ser" dos chineses que talvez não se adequassem rapidamente à democracia. E falou corretamente dessa capacidade deles de saber esperar, com paciência( diferente de nosso imediatismo superficial), um desenvolvimento que se ajuste ao espírito oriental e chinês.
Eles, os chineses, "acreditam" e têm garra para a luta.
Nós, (né, Prof.Darcy Ribeiro?), O Povo Brasileiro, nós acreditamos...só...rs Dá uma preguiça... lutar...rs
Beijo para você!

Renato Couto disse...

Tania: Como você disse, a globalização é inexorável, então devemos buscar nosso ponto de mutação...
Loba: Minha visão do oriente "como um todo", vai longa data, por vários motivos: Acadêmicos, esportivos e filosóficos. É necessário não só entender, mas aceitar as diferenças (apesar da dita globalização...)
Dora:Não me excluo (hehe), tenho um mea culpa tremendo, por essa vontade de ficar na beira do mar, olhando o bater da ondas..heheh

Marcelo F. Carvalho disse...

Renato, este texto é belíssimo (e o mestre Darcy também). Quem sabe, um dia, o Brasil possa entender o básico...Quem sabe?
Abraço forte!

Renato Couto disse...

Marcelo: Este é o nosso sonho...o primeiro degrau da escada.