sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Estratégia - Musashi

Estátua de Miyamoto Musashi em Kumamoto - Japão

Em recente trabalho com amigos, sobre estratégia, onde fugi um pouco da economia e entrei na administração, elaboramos alguns tópicos sobre estrategistas famosos, onde acabei indo para minha "outra praia", o caminho da espada, tentando traçar um paralelo entre técnicas marciais com seus correspondentes "práticos", ao nosso cotidiano ou histórico ocidental. Aí vai...

Estratégia
Miyamoto Musashi


Baseado no livro “Go Rin No Sho” – Um Livro de Cinco Anéis

O livro de Musashi está profundamente carregado de filosofia Zen, Xinto e pelo Confucionismo, não apresentando simplesmente (o que já seria muito) uma tese sobre estratégia de luta e sim, nas palavras de Musashi, “uma orientação para os homens que desejam aprender estratégia”, assim, de uma forma mais ampla e estando sempre além da nossa compreensão imediata.

Foi escrito dois anos antes de sua morte, quando se isolou para viver em uma caverna, aproximadamente aos cinqüenta anos de idade. Musashi dividiu seu livro em cinco partes:

Terra: Onde destaca que o caminho da estratégia, não é apenas o caminho da esgrima, deve-se separar um simples lutador de espada, do verdadeiro estrategista, pois o segundo estuda todas as coisas, desde as menores, como as maiores. Realiza um pequeno esboço de seu livro, comparando o ofício do guerreiro a outros, como o ofício do comerciante e do carpinteiro. Afirma que aquele que derrota um homem pode derrotar dez e aquele que derrota dez, pode derrotar cem, assim sucessivamente, demonstrando a estratégia em larga escala;
Água: Inicia nesta parte, suas aplicações técnicas (para os que conhecem Kendô, fica bastante claro), com técnicas onde “nos moldamos” ao adversário, assim como a água, que adota qualquer forma;
Fogo: Nesta parte, o combate torna-se mais feroz, destaca a importância da velocidade nas decisões, escreve “o treinamento para matar, se faz por meio de muitas lutas”. Destaca-se o conceito de esmagar, onde diz que quando houver a possibilidade e o inimigo mostra-se fraco, não deve haver clemência, devendo-se esmagá-lo de uma vez por todas, “sem respeito e sem lhe conceder espaço para respirar”;
Vento: Descreve o caminho e técnicas de outras escolas de sua época, pois o guerreiro deve conhecer a técnica de seus oponentes, assim Musashi registra os pontos insatisfatórios, um a um;
Nada: Com linhas extremamente filosóficas diz: “No Nada está a virtude e nenhum mal. O Caminho tem existência, o espírito é o vazio”. De difícil compreensão, grosso modo, Musashi nos leva a procurar não um Nada existencial, que nada possui, mas o Nada como a possibilidade do Tudo, como a antiga parábola zen da xícara de chá...

Conhecer simplesmente as técnicas ou estratégias não é o suficiente, é o modo de aplicá-las, quando frente a frente com o inimigo, que lhe dá a verdadeira eficiência. Musashi apresenta centenas de estratégias, algumas de imediata compreensão, outras nem tanto. Seguem algumas e suas respectivas "traduções":

MAAI – Distância

A diferença entre um principiante e o mestre, é que o segundo dominou a arte de usar o espaço a seu favor, manipulando, movendo-se sutilmente, o suficiente para não ser atingido, nem mais, nem menos e aproveitando-se da proximidade, contra-atacar sem defesa. É importante saber até onde o inimigo pode atacar, até onde sua arma alcança, seja na relativa proximidade de uma espada ou na distância de uma flecha.
O presidente de uma multinacional, tem muito mais poder no país onde tem sua sede, na medida que se afasta de sua sede, sua influência irá diminuindo. Dentro de sua empresa, existem executivos que sentam a seu lado, nas reuniões por exemplo, com maior poder que executivos distantes, por causa da proximidade.

TOKOSHI – Cruzar a longa distância com velocidade

Quando se está em TOMA (longa distância), deve-se tomar a iniciativa de aproximação, pois a única segurança na guerra, é avançar e destruir o inimigo. O principiante recua quando atacado, o que é um grave erro.
Nós ocidentais usamos a máxima: “a melhor defesa é o ataque”. Às vezes não basta ser agressivo, mas ser agressivo o suficiente, não dando chance ao revide.

SHIKOTAI – Perto do inimigo

Chegar tão perto do inimigo, que ele não tenha tempo para manobrar.
Como negociantes, que abrem um negócio próximo do concorrente, sendo que os próprios anúncios e propagandas deste, servirão para vender os produtos do estrategista.

FUKURAMI - Expandir o inimigo

Fazer com que aquele, que está entrincheirado, saia e se expanda, assim tornando-se fraco.
A Alemanha nazista, lutando em diversas frentes, perdeu sua força e foi derrotada.

SHUKOTAI – Manter a arma mais próxima

Esta estratégia ensina que devemos manter nossa arma, mais próxima do corpo que o normal, assim diminuindo a distância entre nós e o nosso inimigo, obviamente válida, desde que o inimigo não perceba, estando assim sujeito a um ataque de surpresa.
Estocar um determinado produto, antevendo um aumento da demanda, imediatamente satisfazendo-a, quando os concorrentes ainda terão que efetuar pedidos de compra.

HYOSHI – O tempo de execução

Cada coisa no universo tem seu ritmo. Um homem grande tende a ser mais lento que um homem pequeno, assim é fundamental conhecer o ritmo do inimigo, para escolher a estratégia vencedora.
O mesmo conceito é válido para as empresas pequenas e empresas grandes, pois não são as grandes derrotando as pequenas e sim as rápidas derrotando as lentas.

KATSURI – Mudar de velocidade

Pode-se ganhar, mudando de velocidade, forçando o inimigo a um ritmo que não seja seu ritmo natural.
Os debatedores ou vendedores, costumam muitas vezes falar rapidamente, de modo a não dar tempo ao interlocutor racionar, desta forma, aceitando seus argumentos.

MINARI – Aparência

Uma imagem ou aparência forte pode amedrontar o inimigo, fazendo que ele cancele seu plano de ataque, pois a melhor vitória é quando vencemos sem a necessidade do combate. Devemos considerar não nossa aparência real, mas como nosso inimigo nos vê.
O negociante sabe que uma aparência próspera é um importante sinal de lucros. Muitas empresas sobrevivem às crises, não porque eram bem sucedidas, mas porque aparentavam ser. Veja a diferença de conseguir captar algum recurso (num banco, por exemplo), indo de short e chinelo ou indo de terno e gravata.

UTSURAKASHI - Contagiar

As emoções são contagiantes. Ao adotar uma expressão tensa, podemos induzir nosso adversário a este estado de tensão, porém, atacamos tranqüilos e relaxados. Ou parecemos despreocupados e desinteressados pelo combate, assim, quando o adversário relaxar, atacamos furiosamente e o destruímos. O objetivo é levar o adversário a ter o mesmo tipo de sentimento que (aparentemente) temos. As crianças, inconscientemente usam esta técnica.

ZENTAI – Corpo total

Deve-se atacar o corpo todo do inimigo e não somente uma parte. Não dirigir a ação somente para as mãos, ou para a cabeça e sim enxergar o oponente como um todo.

KADO – Cortar um canto

Quando não puder atacar com um golpe contundente, ataque o que puder.
Os pugilistas usam esta estratégia, ao golpear sucessivamente o fígado do adversário, até extinguir por completo a resistência deste, propiciando o nocaute.

MAKURA OSAE - Manter sob pressão um travesseiro

Usa-se esta estratégia, quando se quer controlar o oponente através da restrição do movimento de sua cabeça.
Nas tomadas de poder, usa-se esta estratégia, eliminando sumariamente os líderes oposicionistas, assim foi feito em Cuba, no Chile e outros países.

SUTEMI - Sacrifício

Estratégia do sacrifício, onde se aceita uma pequena ferida, em troca da derrota total do inimigo. Uma pequena perda momentânea, por uma vitória final.
Os kamikazes japoneses foram um exemplo deste tipo de estratégia, apesar de não ganharem a guerra, graças a ela, mantiveram-se nela por mais tempo, até que os Estados Unidos, usaram KOKOROZUKI.

KOKOROZUKI - Golpe fatal

O objetivo é o coração do inimigo, para o golpe fatal e decisivo.
No final da 2ª Grande Guerra, os Estados Unidos, usaram sem clemência a bomba atômica, para ganharem e terminar a guerra

3 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Eu li, viu Xará! Sobretudo porque escrevi um livro sobre o Japão e saiu uma droga. Se eu o conhecesse, pediria a sua ajuda. Xará, fiz postagem nova dedicada aos nossos irmãos portugueses. Aperte a tecla "Page Down" e pare onde bem lhe aprouver. Se tiver interesse em mais coisas, volte outro dia, pois o post não vai sair de lá.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
No final do post, há uma casinha, um banquinho, depois quem quiser pode ir ao meu castelo.
Não me faça vir aqui de novo!

Dora disse...

Nossa! Renato! Ao terminar de ler o texto eu me senti quase "nocauteda" pela variedade de estratégias para se vencer um "oponente". Todas me pareceram cruéis. Enquento eu lia, nunca conseguia pensar em termos de "empresas" ou em mundo de finanças...Pensava em uma luta de dois contendores, pessoas físicas. Não tenho a "mente" treinada para conviver nesse universo tão familiar a você!
Gosto de estratégias nos jogos de xadrez, no máximo!
O paralelo com as técnicas marciais e seus correspondentes "práticos" me pareceu um exercício extremamente interessante, no entanto...
Mas, prá mim, só serve de informação, já que sou um peixe fora d´água nesse ambiente de administração de empresas.
Valeu!
Beijos!
Dora

loba disse...

Vou ser muito sincera! Textos sobre economia me são penosos. Mas este eu simplesmente adorei. Como vc mesmo disse, saiu da economia e passou para a administração.
Há 3 anos, abandonei a Educação e passei para a Administração. Sou e serei uma eterna aprendiz, mas nunca encontrei em todos os cursos que fiz um texto com esta clareza. Talvez por estar tratando da estratégia como um todo. Genial! Estou copiando e levando comigo. Com certea me será útil daui pra frente! rs...
Beijo samurai!